Em artigo publicado no portal Poder 260, o sócio fundador do CBIE, Adriano Pires, afirma que
A proposta da ANP para revisar a regulação do transporte de gás natural no Brasil tem criado preocupações legítimas sobre a forma como os riscos são distribuídos entre os agentes do setor. A ausência de distinção entre ativos amortizados e novos investimentos, somada à indefinição sobre quem absorve o risco de demanda, pode levar a tarifas inflacionadas e à judicialização do modelo.
Mas esse debate não é exclusivo do Brasil. Na Europa, o plano REPowerEU, lançado em resposta à emergência energética provocada pela guerra na Ucrânia, também traz reflexões importantes sobre a alocação de riscos, embora com uma abordagem bastante distinta e que deveria ser levada em conta pela ANP.
Enquanto a proposta brasileira parece concentrar riscos no consumidor final, ao permitir que o transportador seja remunerado mesmo por ativos ociosos, o REPowerEU parte de uma lógica inversa: proteger o consumidor e o sistema como um todo da volatilidade geopolítica e da dependência excessiva de fornecedores únicos.
O plano europeu busca diversificar o aprovisionamento, acelerar a transição energética e, sobretudo, garantir que os investimentos em infraestrutura estejam alinhados com metas de segurança energética e sustentabilidade. Isso implica uma alocação de riscos mais equilibrada, com forte participação pública na definição de prioridades e na coordenação dos investimentos.
Outro ponto de contraste é a governança. No Brasil, o transportador ainda acumula funções operacionais e de planejamento, o que cria um viés pró-investimento –ou seja, uma tendência a expandir a malha de gasodutos mesmo sem demanda comprovada, só para aumentar a base de ativos remunerados.
Já na Europa, o REPowerEU propõe uma separação clara entre os interesses privados e as decisões estratégicas, com forte atuação da Comissão Europeia e dos Estados-membros na definição dos projetos prioritários. A lógica é evitar que o risco de subutilização recaia sobre o consumidor, promovendo uma alocação mais eficiente e transparente.
Além disso, o plano europeu reconhece que o gás natural é um combustível de transição e, portanto, seus investimentos devem ser temporários, flexíveis e compatíveis com metas climáticas.
No Brasil, a proposta da ANP não apresenta mecanismos que limitem a perpetuação de ativos obsoletos na base tarifária, nem incentivos claros para a descarbonização da matriz. Isso cria um descompasso entre o discurso de transição energética e a prática regulatória.
Em suma, enquanto o REPowerEU busca combinar investimentos com reformas estruturais, promovendo uma alocação de riscos que favoreça a resiliência e a modicidade tarifária, a proposta brasileira ainda carece de mecanismos que garantam eficiência econômica e justiça regulatória.
A criação de um operador independente, a separação entre ativos legados e novos, e a definição clara de quem absorve o risco de demanda são passos urgentes para que o Brasil possa se alinhar às melhores práticas internacionais —e transformar o gás natural em um vetor de competitividade, não de ineficiência.
Fonte: Poder 360 – Adriano Pires
Related Posts
Uso de gás natural no Amazonas evita a emissão de 7,5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa
O uso do gás natural tem contribuído para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no Amazonas. De acordo com levantamento da Cigás, mais de 7,5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa...
Knauf substitui parte do gás natural por biometano em fábrica de materiais de construção no Rio
A Knauf, fabricante de materiais de construção, vai substituir parte do seu consumo de gás natural por biometano na planta em Queimados (RJ), a partir deste mês. O biocombustível será fornecido pela Gás...

