O lixo não desaparece simplesmente quando a gente fecha a tampa da lixeira nem quando o caminhão de limpeza passa na rua. Nas cidades brasileiras, milhares de toneladas de resíduos são descartadas todos os dias, acumulando-se em aterros ou, pior, em áreas irregulares. Mas há uma saída que está mudando o destino desse material – e, de quebra, vai deixar a matriz energética do País mais limpa: transformar o lixo em gás renovável. O processo começa com a decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos sólidos urbanos (RSU), que gera biogás. Ao passar por purificação, esse biogás se torna biometano – combustível que pode ser usado no transporte, na indústria ou na geração elétrica. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), Europa, China e Estados Unidos respondem por 90% da produção mundial de biogás. A Europa é a maior produtora, com destaque para a Alemanha, que concentra dois terços da capacidade instalada do continente. Nos EUA, quase 90% do biogás vem de aterros sanitários. A China, por sua vez, tem forte presença de biodigestores rurais e políticas de incentivo ao uso de biometano nos transportes. Além desses, países como Dinamarca, França e Itália também vêm adotando políticas para estimular o aproveitamento de resíduos na produção de energia renovável.
A IEA estima que o Brasil, embora ainda no início, deve tornar-se, em breve, o quinto maior produtor do mundo, respondendo por mais de 10% do fornecimento incremental global até 2026. Segundo a ABiogás, o volume produzido no Brasil pode chegar a 6 milhões de m³/dia até 2029, com 86 plantas em funcionamento. Contudo, para que essa estimativa se concretize, projetos grandes e inovadores precisam de apoio público. O BNDES já financiou mais de R$ 700 milhões em projetos de biogás e biometano, destinando recursos a iniciativas que transformam resíduos em combustível em escala industrial. Para a diretora de Infraestrutura e Mudança Climática do banco, Luciana Costa, o biometano representa uma oportunidade de impacto rápido e consistente. “É um combustível que faz os resíduos deixarem de ser um problema no País, reduz duplamente as emissões, movimenta economias locais e pode ser integrado à infraestrutura existente de gás natural. Isso acelera a transição energética de forma concreta”, afirma. “O apoio do BNDES à produção de biometano integra uma estratégia nacional para ampliar a participação de fontes limpas na matriz energética, reduzir emissões e promover a economia circular. Ao transformar resíduos em combustível renovável, contribuímos para a descarbonização, para a segurança energética e para a geração de novas oportunidades econômicas em diferentes regiões do País”, afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Entre as empresas apoiadas está a Ciclus, que faz a gestão integrada dos resíduos sólidos do Rio de Janeiro e de municípios vizinhos. Há 15 anos, a companhia iniciou operações em Seropédica (RJ), encerrando lixões históricos e implantando o maior aterro sanitário bioenergético da América Latina. Ocupando uma área de 3,7 milhões de metros quadrados, ele se tornou referência em gestão de resíduos e aproveitamento energético no País. O aterro recebe cerca de 10 mil toneladas de resíduos por dia, sendo 9 mil do município do Rio. De acordo com Rafael Silveira, diretor de Operações, ele responde por 10% de todo o biogás produzido em aterros no Brasil. “Captamos cerca de 576 mil m³ por dia. Grande parte vai para a Gás Verde, nossa parceira, que produz em média 130 mil m³/dia de biometano, distribuído para indústrias e postos da região”, diz. A outra parte do biogás abastece grupos geradores que produzem 2,8 MW – energia suficiente para atender 56 mil habitantes – e a capacidade deve chegar a 8,4 MW ainda em 2025. O financiamento de R$ 125,7 milhões do BNDES contou com recursos do Fundo Clima e da Linha Saneamento. O projeto faz parte de um plano para ampliar a capacidade de recebimento do aterro para 11,4 mil toneladas diárias e implantar melhorias como novas lagoas de chorume e reforço no monitoramento ambiental.
Há um duplo benefício para a sociedade: essas medidas aumentam a produção de biogás e biometano e reduzem os riscos ambientais associados ao descarte inadequado de resíduos. Em Caieiras (SP), no maior aterro sanitário da América Latina, os investimentos se voltam à produção contínua de gás renovável. Em Minas do Leão (RS), uma planta produz até 66 mil m³ diários de biometano de resíduos de 123 municípios. No interior paulista, o Grupo Cocal investe em plantas que usam palha de cana, torta de filtro e vinhaça para gerar energia elétrica e biometano, exportando parte da produção por geração distribuída. A Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina, também recebeu financiamento para construir a primeira planta de purificação de CO₂ do País e agora avança em Igarassu (PE) com nova unidade capaz de gerar mais de 45 mil m³ diários. O biometano pode ser transportado por gasodutos virtuais, via gás natural comprimido (GNC) ou liquefeito (GNL), ampliando o acesso a regiões sem rede canalizada. Caminhões movidos a gás ou ao próprio biometano transportam o combustível, mantendo a cadeia limpa do início ao fim e permitindo que unidades produtivas distantes de grandes centros também participem da transição energética. “O transporte pelos ditos gasodutos virtuais amplia o alcance do combustível e permite atender desde frotas e indústrias no interior até projetos de geração elétrica em áreas remotas. É um vetor de desenvolvimento regional com ganhos ambientais diretos”, afirma a diretora do BNDES. O biometano reduz a emissão de metano – gás até 28 vezes mais poluente que o CO₂ –, diminui a pressão sobre aterros, substitui combustíveis fósseis e movimenta economias locais. O País, que já gera 88% de sua energia com fontes renováveis, pode avançar simultaneamente na gestão de resíduos e na ampliação de energia limpa. Com apoio técnico e financeiro, essa solução tende a se espalhar pelo território, especialmente em áreas que precisam de alternativas sustentáveis, e posicionar o Brasil entre os líderes mundiais no aproveitamento energético do lixo. Para Luciana Costa, o avanço depende de continuidade no apoio técnico e financeiro. “Projetos de biometano têm viabilidade comprovada e podem ser replicados em diferentes regiões. Com planejamento, é possível gerar energia, reduzir passivos ambientais e desenvolver novas cadeias de valor”, conclui a executiva.
Fonte: Carta Capital
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