Uma das maiores produtoras de biogás do Brasil, a Gás Verde planeja investir cerca de R$ 900 milhões nos próximos três anos para ampliar a produção de biometano, de forma a acelerar a substituição de combustível fóssil em indústrias e no transporte. Em entrevista ao Globo, o CEO da companhia, Marcel Jorand, afirma que parte dos recursos será destinada à conversão de dez usinas de biogás em plantas de biometano em aterros sanitários de sete estados, além do desenvolvimento de projetos de produção do chamado CO2 verde, capturado por meio do biogás e reaproveitado por fábricas, evitando sua emissão na atmosfera. “O Brasil vai ter uma grande oportunidade em substituir diesel importado por combustível nacional 100% renovável”, diz. Citando o potencial de setores como agronegócios e tratamento de esgoto, ele comemora a Lei do Combustível do Futuro, que prevê mistura obrigatória de biogás e biometano no gás natural em alíquotas crescentes, até 2030. “Essa lei não só vai ajudar a descarbonizar e a trazer segurança energética, como vai subsidiar o saneamento do Brasil, trocando lixão por aterro”.
Como é o projeto de conversão das usinas de biogás em biometano?
A Gás Verde tem hoje 12 usinas em sete estados. São dez que operam com energia elétrica dentro de aterros e geram eletricidade a partir de biogás. Há ainda duas usinas de biometano (que separam o biogás em metano e CO2), uma em Seropédica, no Rio, e outra em São Paulo. Nosso plano nos próximos dois anos é converter todas essas dez térmicas a biogás em plantas de biometano. Hoje produzimos em torno de 1,5 milhão de metros cúbicos de biogás nas plantas de energia elétrica por dia. Vamos construir uma planta de biometano do lado da usina de biogás. E, assim que ela estiver pronta, desligamos os motores e ligamos a planta de biometano. É uma planta 100% nova. Em Pernambuco e São Paulo, as unidades já estão em construção. Vamos começar as obras em Minas Gerais em breve. Até o fim de 2028, pelo menos oito já estarão prontas e operando 100% com biometano. Com a conversão das plantas para biometano, todo o biogás será utilizado para produção de biocombustível.
E qual é o valor desse investimento?
A empresa vai investir R$ 900 milhões nos próximos três anos em todos os seus projetos. As novas plantas de biometano variam entre 25 mil e 100 mil metros cúbicos por dia. São projetos de longa duração, que demoram em torno de um ano e meio para ser construídos. A Gás Verde produz atualmente 160 mil metros cúbicos de biometano por dia. A meta é chegar a 650 mil metros cúbicos diários nos próximos três anos.
Há demanda por biometano? Isso ajuda na descarbonização das indústrias?
Uma das grandes belezas do biometano e do biogás é a versatilidade. Podemos usar biometano para substituir diesel em frota de caminhão. Temos siderurgia usando biometano em fornos, temos empresa de beleza que usa em caldeira. Temos o biogás para geração de energia elétrica.
O biometano ainda é caro para as empresas. Isso não atrapalha?
Em geral, somos de 20% a 25% mais baratos que o diesel e mais caros entre 20% a 25% que o gás natural. Mas, no contexto geral de descarbonização, somos muito competitivos. O biometano é 100% renovável. Quando uma empresa compra biometano, ela desestimula a produção de combustível fóssil. Por isso, sou um belo competidor para a solução completa que a indústria tem de dar para descarbonizar. Procuramos os clientes já com projeto para descarbonizar determinadas etapas, seja na produção ou no transporte.
Por ser mais barato que o diesel, o biometano tem crescido no transporte?
Hoje a gente abastece 12 mil veículos leves por dia no Rio, além da frota de caminhões. Se um operador de posto quer ter GNV, a gente vai lá, coloca um ponto nosso com carreta e ele passa a poder vender GNV para caminhão e veículo leve. É um mercado que não para de crescer. A gente cresce 20% ao ano em veículos leves e 1.000% em veículos pesados para atender às empresas. Temos dezenas de pontos de abastecimento para caminhão em estudo para 2026. Vamos estar na Via Dutra, na BR-101 e na Fernão Dias.
Qual é o potencial de produção de biometano no país?
A produção de biometano no Brasil deve saltar do atual 1 milhão de metros cúbicos por dia para 8 milhões até 2032. O potencial é de 120 milhões de metros cúbicos por dia, segundo a Abiogás, a associação do setor. O grande foco vai ser o uso do biometano nas frotas pesadas. O Brasil vai ter uma grande oportunidade em substituir diesel importado por combustível nacional 100% renovável, transformando as grandes frotas de ônibus. Acho que esse é o grande caminho que o Brasil vai seguir. Além disso, tem o mandato da Lei do Combustível do Futuro, que vai fazer com que as empresas que distribuem, comercializam e produzem gás natural comprem até 10% em volume equivalente de biometano em dez anos. O biometano tem uma curva enorme de crescimento. A festa está só começando.
A Lei do Combustível do Futuro é importante para fomentar a demanda futura?
Essa lei não só vai ajudar a descarbonizar e a trazer segurança energética, como vai subsidiar o saneamento do Brasil, trocando lixão por aterro. Essa lei faz o Brasil seguir uma linha histórica. E ainda evita a produção do combustível fóssil.
O senhor falou na conversão dos lixões em aterros, mas a Política Nacional de Resíduos Sólidos não deslanchou. Como contornar esse cenário?
Hoje o Brasil tem aproximadamente 3 mil municípios com lixão. Muitos não têm dinheiro para tratar o lixo e fazer coleta adequada. Quando você começa a agregar valor para a cadeia do lixo, começa a viabilizar e subsidiar o esgoto, levando saneamento e saúde para esses municípios, porque, se tiver um aterro e produzir biogás, esse insumo poderá ser comprado. Com isso, cria-se uma receita adicional. E, se eu tiver biometano, abasteço o caminhão de forma subsidiada. Essas cidades podem acessar linhas verdes do Fundo Clima do BNDES. Então você começa a levar subsídio para esse ecossistema do lixo no Brasil.
Como isso pode ser feito?
Você vai precisar juntar municípios menores para ter um lugar que receba esse lixo todo, e pegar de 10 a 30 municípios e querer dar uma solução não é simples. Mas tudo passa por reaproveitar, e hoje isso é mais fácil do que antes. Você tem cadeias de triagem, cooperativas, empresas prontas para reutilizar o plástico, o papel, o metal, o papelão e o isopor. Do lado do orgânico, temos hoje uma demanda por biometano muito maior do que conseguimos ofertar. Ao reaproveitar o orgânico como biogás e reaproveitar o não orgânico reciclando, você tem um volume mínimo para viabilizar os projetos. Lixão não dá para nada. O lixão não trata adequadamente o lixo e a população em volta. O que sai dali é chorume indo direto para rio de maneira inadequada, com subemprego. Lixão tem que acabar. O lixo vai se decompor tanto no aterro quanto no lixão. Só que no lixão ele vai para a atmosfera. E o metano é 26 vezes mais nocivo do que o gás carbônico. Então, o que os lixões fazem é muito nocivo.
Além da conversão das usinas para biometano, quais os planos para o CO2 verde?
No biogás, metade é metano, e a outra metade é CO2 e outros componentes, como oxigênio e hidrogênio. Hoje, esse CO2 é queimado na atmosfera, em operação autorizada por ANP e órgãos ambientais. Agora, em Seropédica, vamos começar a operar em dezembro a primeira planta do país de CO2 verde em grande escala a partir de biometano. Ou seja, vou recuperar esse CO2, purificar e vender para indústria de alimentos, bebidas, automóveis, siderúrgicas, entre outras. Para o resto dos gases do biogás, instalamos motores para gerar energia para a própria planta de Seropédica. O investimento foi em torno de R$ 50 milhões e quase 100% financiado pelo BNDES. Vamos produzir em torno de 100 toneladas de CO2 por dia. Toda a produção da planta já está contratada.
Mas o potencial do biometano está apenas em aterros?
Terminando a conversão das usinas a biogás em biometano, vamos buscar novas frentes no agronegócio e no esgoto para poder trazer mais fontes de biometano para nossos clientes como solução ambiental. A estação de tratamento de esgoto tem potencial para gerar biogás e biometano. No agronegócio há muita oportunidade, começando pelas usinas de cana. A cada um litro de etanol há dez litros de vinhaça, que é o caldo da cana que não é usado e que precisa ser tratado para depois ser usado no solo. Usando a vinhaça para produzir biometano, não é preciso tratar.
Os juros altos atrapalham?
O custo do capital hoje no Brasil é nosso grande dificultador. Mas o BNDES, com o Fundo Clima, consegue fazer com que a gente não desacelere e siga com os projetos.
O combustível renovável pode dar um novo papel ao lixo?
Penso que, no futuro, vamos escavar aterro para buscar plástico, assim como fazemos com petróleo. Vamos chegar nesse nível quando entendermos o quanto precisamos reutilizar o que já está no meio ambiente. Os aterros são fundamentais para a melhor reutilização dos recursos já industrializados no Brasil. A indústria do aterro vai continuar se modernizando, gerando energia a partir do próprio lixo. Acho que o biometano vai ser mandatório em todos os aterros. É uma fonte de renda hoje da qual eles não podem abrir mão.
Fonte: O Globo
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