A abertura do mercado brasileiro de gás natural deu um salto em 2025 e, enfim, chegamos ao marco dos 100 usuários livres no segmento industrial.
O Mercado Livre em números
Levantamento da agência eixos, com base em dados públicos da ANP, mostra que 2025 foi o grande ano do mercado livre de gás no Brasil: 62 indústrias assinaram seus primeiros contratos no mercado livre em 2025, mais do que dobrando a base de usuários livres no país; a lista inclui grandes empresas como GM, Eurofarma, Bridgestone, Unilever, Vallourec etc. e, ao fim do ano, 108 indústrias tinham algum contrato no mercado livre. Do lado da oferta: 12 comercializadores diferentes possuem ao menos um contrato no mercado livre; em número de clientes livres, a liderança era ocupada pela Edge, seguida da Petrobras – que intensificou a sua presença no segmento e lidera em volumes. A Petrobras, aliás, informou que atingiu a marca de 6,6 milhões de m³/dia de volume contratado na modalidade firme inflexível em 2025 no mercado livre. Segue o ranking dos cinco maiores comercializadores (em nº de clientes): Edge (31 usuários livres); Petrobras (23); Galp (18); J&F (14); e Shell (9).
Embora o primeiro contrato do mercado livre de gás remonte ao fim dos anos 2000, entre a Petrobras e Furnas, foi só em 2021 que as primeiras indústrias se aventuraram a entrar no ambiente livre, na esteira da abertura do setor de gás natural. Na ocasião, a Proquigel, Gerdau e a Refinaria de Mataripe se lançaram no mercado livre. Cinco anos depois, o universo de clientes livres no setor industrial já é bem mais amplo agora, embora ainda haja muito espaço para crescer. O número inclui usuários livres que consomem biometano também, como os clientes da Ecco Distribuidora de Gás, que fornece o biocombustível da Cocal e que estão enquadrados como consumidores livres pela ANP.
E para onde vai o mercado livre em 2026?
As perspectivas para o mercado livre em 2026 seguem positivas. A Thymos Energia projeta um crescimento de 30% no número de usuários livres no ano, enquanto a NewGas prevê um aumento de 10% a 15%. Bruno Resende, gerente de Gestão de Gás da NewGas, cita que expansão acompanha a pulverização dos consumidores livres, à medida que os comercializadores descem suas linhas de corte em busca de indústrias cada vez menos gás-intensivas, de olho no aumento de seus respectivos portfólios. Além disso, segundo ele, a revisão gradual das regulações estaduais, no sentido de estimular a abertura, tende a destravar novos mercados – casos recentes do Ceará e Mato Grosso do Sul, por exemplo. Encerrada a janela de virada de ano, as migrações usualmente costumam desacelerar – até voltarem a ganhar tração a partir do 2º trimestre. Este ano, há um fato novo: o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), de 18 de março, para onde o esforço comercial dos vendedores de gás converge neste momento. A expectativa, conta a diretora técnica da NewGas, Renata van der Haagen, é que uma vez passado o certame, as negociações voltem a ganhar ritmo no mercado livre a partir de abril. A gerente de Gás Natural da Thymos Energia, Jamille Moreira, acrescenta que há um certo represamento de migrações em São Paulo, o maior centro industrial do país. Ela relata que alguns usuários pisaram no freio em migrações recentes, em meio ao ganho de competitividade do mercado cativo – pontual, devido à devolução integral do saldo da conta gráfica da Comgás pró-consumidores no fim do ano. A consultora cita que, com o novo reajuste das tarifas da distribuidora, em março, o mercado livre voltou a ter competitividade. “Agora temos o go ahead para seguir com a migração”, comenta. Ela pondera, no entanto, que nem todas as incertezas foram dissipadas. E cita a devolução dos créditos tributários de R$ 2 bilhões, recém-regulamentada pela Arsesp, o regulador paulista, que pode mexer novamente com a relação de competitividade entre os ambientes livre e cativo. “Esse cenário de imprevisibilidade dos custos do cativo gera insegurança para o usuário interessado em migrar”, comenta Jamille Moreira.
A guerra muda os planos?
Claro, tem a guerra no Oriente Médio no meio do caminho. Na semana passada, analisamos como o conflito pode mexer com o mercado brasileiro. Vai depender, ao fim, da extensão da guerra, mas, por ora, a visão é de que o impacto sobre os preços do gás no mercado doméstico no tende a ser diluído. O cenário ainda é nebuloso e o olhar sobre o mercado livre, em si, tem diferentes nuances. Jamille, da Thymos, destaca que o mercado livre é o espaço onde o consumidor pode buscar a redução da exposição à alta do petróleo. O Brent é o principal indexador do gás nos contratos de suprimento no mercado brasileiro, tanto no ambiente cativo quanto no livre, mas na relação direta com os supridores o consumidor tende a ter mais espaço de negociação. “Em linhas gerais, [o pico de preços] deveria fomentar a ida ao mercado livre, onde os agentes buscam um percentual de indexação ao Brent menor que o das distribuidoras”, comenta a consultora. Por outro lado… a valorização do preço do petróleo – que na última semana tocou o nível simbólico de US$ 100 o barril – tende a encarecer o custo do m³ do gás, seja em que ambiente de contratação for. Renata van der Haagen, da NewGas, acrescenta que ainda não está claro como a guerra poderá impactar (ou não) nas propostas dos comercializadores – que não são, aliás, um bloco homogêneo. “Cada agente enxerga o risco de formas diferentes. Alguns têm sinalizado que as propostas podem subir de patamar e outros que vão continuar nos termos que estavam sendo negociados. Os comercializadores ainda estão tentando enxergar para onde vão os preços no mercado internacional e, por ora, as propostas não têm mudado para a grande maioria dos casos”. Na janela dos contratos de fim de ano, a precificação do gás no mercado livre girou em torno de 10,6% a 11% do Brent. “Não acho que vamos ter um grande descolamento de preços no mercado doméstico por conta da guerra, como ocorreu em 2022, mas é fato que o que estava sendo precificado no Real por m³ vai ficar mais alto. No cativo também vai”, completou.
O amadurecimento do mercado livre
Depois de, enfim, começar a ganhar tração, o mercado livre deve caminhar para um processo de amadurecimento que passa pelo aumento da aposta dos agentes nas operações spot (de curto prazo) e na digitalização dos processos, na avaliação de Antônio Quirino, CEO da GasHub. “A grande maioria das indústrias migrou para o mercado livre, mas continuou ainda em estruturas de contrato muito parecidas com a do cativo. Um pouquinho mais de flexibilidade, um preço um pouquinho menor, mas não mudou tanta coisa”. Jamille Moreira também aposta no crescimento do gás spot. Ela destaca que o mercado de curto prazo é uma alternativa interessante para consumidores que queiram se livrar de penalidades associadas ao gás de ultrapassagem – volumes maiores que o programado. Ela acredita que a figura do usuário livre que contrata a saída no sistema de gasodutos de transporte também tende a se consolidar gradualmente no mercado brasileiro. “Ser carregador dá uma autonomia ao usuário, para aproveitar oportunidades spot isso é muito importante”, disse.
Uma outra tendência, segundo ela, é o aumento do apetite do consumidor livre por contratos um pouco mais longos, de mais de um ano, do tipo ‘escadinha’ – com curvas decrescentes de volume contratado no decorrer dos anos.
ANP começa a debater gas release
Em meio ao crescimento do mercado livre, a ANP começa a trabalhar em cima de uma proposta de um programa de desconcentração da oferta — e que pode liberar volumes para comercializadores e usuários livres. A agência espera iniciar a implementação de um programa de gas release a partir de 2027, com metas anuais de redução da participação da Petrobras, o agente dominante, anunciou o regulador. A meta é colocar a minuta de resolução em consulta pública entre outubro e novembro e concluir a regulamentação do gas release até o fim do ano. Entre as visões preliminares da ANP para o programa, vale citar que o objetivo é acelerar a entrada e a expansão de comercializadores no mercado de gás firme não-termelétrico na malha integrada (excluído o consumo no downstream), reduzindo a dependência da Petrobras; fixação de metas indicativas anuais intermediárias e mecanismos de ajustes para o 1º ciclo 2027-2030; participantes elegíveis: comercializadores (sem relação de controle/coligação com a Petrobras) e consumidores livres; Produto: pacote molécula + capacidade de infraestruturas até o ponto de entrega, com duração de 12 meses para cada liberação (podendo ser semestral no 1º ano). A iniciativa enfrenta oposição da Petrobras, que é contra quaisquer propostas de gas release. O diretor-geral da ANP, Artur Watt, contemporizou, ao dizer que o Brasil precisa de um “diálogo franco e aberto” sobre o gas release, mas que a discussão não pode ignorar o papel que a Petrobras possui na indução de investimentos para aumento da oferta de gás. Sobretudo num cenário de riscos à segurança energética no contexto global. “Já adianto que minha visão é que a gente não pode ou não deve interferir nisso de forma nenhuma [de forma a] reduzir investimentos na produção, principalmente de gás nacional nesses tempos de insegurança energética”, disse.
Fonte: Eixos / GasWeek
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