Em artigo publicado no Estadão, o sócio fundador do CBIE, Adriano Pires, afirma que, Em 2026, o GNL passou a operar sob uma nova lógica: menor previsibilidade, maior sensibilidade a disrupções e crescente valorização da segurança energética. O ponto central está na própria natureza do mercado de GNL. Diferentemente do petróleo, que possui maior liquidez e flexibilidade logística, o gás natural liquefeito depende de uma cadeia altamente intensiva em capital e pouco responsiva no curto prazo. Liquefação, transporte e regaseificação exigem anos de investimento e planejamento. Ou seja, a capacidade de resposta é limitada e choques de oferta penalizam de forma desproporcional os mercados mais dependentes de importação. Os ataques iranianos ao terminal de GNL de Ras Laffan, no Catar, comprometeram o equivalente a 3% da capacidade global de liquefação. Estima-se que cerca de 17% da capacidade de exportação de GNL do Catar – um dos maiores exportadores do energético – ficará paralisada por até cinco anos. Ou seja, a intensificação do conflito com o Irã eleva o risco de disrupções logísticas, mesmo sem a materialização de um bloqueio. O aumento do risco já pressiona fretes, seguros e prêmios contratuais, impactando diretamente o preço final do GNL.
O ciclo geopolítico atual reforça uma mudança importante no comportamento dos agentes. A lógica de otimização de custos vem sendo substituída por uma lógica de segurança de suprimento. O GNL consolidou-se como um ativo estratégico, com um “prêmio de segurança”. Essa mudança tem impacto direto na dinâmica de preços. O GNL passa a carregar um componente geopolítico mais persistente. Com isso, está ocorrendo uma diversificação de produção de GNL potencialmente para diminuir a dependência estratégica. Argentina, Tanzânia e Moçambique são exemplos disso. As tradings houses vão pressionar para essa diversificação. Ficar nas mãos dos EUA é tão ruim quanto ficar nas mãos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Quem também se beneficiará com certeza será a Venezuela, onde deverá acelerar os investimentos das grandes petroleiras na produção de GNL. Vai ser um jogo super-rápido. Essa é a minha aposta. O GNL deixou de ser apenas uma commodity e passou a ser tratado como um ativo estratégico de segurança energética. Essa mudança redefine o comportamento de agentes do setor, assim como o peso de diferentes aspectos em sua tomada de decisões. Em um ambiente mais incerto, fatores como confiabilidade e previsibilidade passam a ser tão relevantes quanto o custo da molécula. A crise envolvendo EUA, Israel e Irã não foi o que trouxe o novo paradigma para o segmento. Foi, na verdade, um catalisador da transformação que já estava em curso desde 2022.
Fonte: O Estado de S.Paulo – Adriano Pires
Related Posts
Porque o RCM deve prevalecer na revisão tarifária do gás
Em artigo publicado no portal BrasilEnergia, o consultor Bruni Armbrust afirma que O processo de revisão tarifária do transporte de gás segue em evolução. Pouco antes da Páscoa foi encerrado o período de...
Bio-GNL: a nova era do biometano entre a transição e a segurança energética
Em artigo publicado no portal da agência eixos, o economista Leonardo Campos Filho afirma que A ideia era reportar as oportunidades representadas pela utilização do biometano substituto e complemento do...

