Em artigo publicado no portal da agência eixos, o economista Leonardo Campos Filho afirma que
A ideia era reportar as oportunidades representadas pela utilização do biometano substituto e complemento do gás natural liquefeito (GNL) convencional no transporte marítimo internacional. No entanto, após três semanas de guerra no Irã e no Golfo Pérsico, e com os danos às gigantes infraestruturas de oferta e de exportação de GNL no Qatar, responsável por 1/5 das exportações mundiais, o tema ganhou maior amplitude e trouxe novamente à tona preceitos de diversificação e segurança da oferta, que afetam todo o mercado de GNL em escala mundial. Primeiro, o caso do transporte marítimo internacional. Trata-se de um setor global, intensivo em energia, com ativos de vida longa e com crescente pressão regulatória. A Organização Marítima Internacional (IMO) estima que o shipping responda por cerca de 3% das emissões globais de CO₂. Nesse ambiente, muitas rotas de descarbonização discutidas para “o futuro” (hidrogênio e amônia, sobretudo) ainda enfrentam barreiras relevantes de custo, infraestrutura e segurança operacional.
Em contrapartida, o biometano, especialmente na forma bio-GNL (biometano liquefeito), se destaca como uma alternativa com maturidade tecnológica e com capacidade de aproveitamento de infraestrutura existente. Ao ter inúmeras rotas tecnologias de produção e múltiplos insumos, a oferta potencial de biometano é amplamente dispersa geograficamente o que mitiga risco de oferta. Se a escala de produção é um desafio, o seu transporte comprimido, tecnologia bem conhecida em modal rodoviário, facilita a criação de hubs agregadores e interligados às infraestruturas existentes para o gás natural convencional e GNL. A trajetória recente de crescimento do biometano tem sido puxada por incentivos governamentais em grandes mercados em diferentes regiões do mundo. Na Europa, o biometano passou a ser tratado como instrumento de segurança energética, e o plano REPowerEU estabeleceu a meta de 35 bilhões de m³/ano até 2030. Nos Estados Unidos, o crescimento do “RNG” (Renewable Natural Gas) se conectou a políticas baseadas em créditos de descarbonização, como o Renewable Fuel Standard (RFS), administrado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), e o Low Carbon Fuel Standard (LCFS) na Califórnia, que remunera combustíveis de menor intensidade de carbono.
No Brasil, o apetite por biometano se apoia numa combinação rara de disponibilidade de resíduos (agropecuária, agroindústria, saneamento e resíduos sólidos urbanos), possibilidade de interiorizar a produção e utilização do gás natural, e contribuir com a transição energética. Nesse sentido, a Lei nº 14.993/2024 (lei do combustível do futuro) criou programa específico e um mandato progressivo de descarbonização do setor de gás natural, com metas que começam em 1% a partir de 2026, podendo chegar a 10%, com cumprimento que poderá ocorrer tanto por uso físico de biometano quanto por Certificados de Garantia de Origem (CGOB). É justamente nesse ponto que o transporte marítimo pode provocar um salto de escala. O shipping, ao contrário de aplicações dispersas (por exemplo, frotas rodoviárias regionais), concentra demanda em poucos hubs e opera com logística internacional padronizada. Isso favorece contratos de longo prazo (off take), padronização de especificações e investimentos em infraestrutura portuária — elementos críticos para transformar biometano em commodity global de energia limpa.
O bio-GNL entra como ponte viável dado que setor vem expandindo a frota e a cadeia de suprimento de GNL como combustível marítimo, e essa infraestrutura — tanques criogênicos, sistemas de abastecimento e parte dos terminais — é, em grande medida, compatível com o biometano liquefeito. Uma análise da coalizão multissetorial SEA-LNG estima que a produção mundial anual de biometano está em torno de 30 milhões de toneladas de GNL equivalente, valor que corresponderia a aproximadamente 15% a 20% da demanda anual de energia atual do shipping em rotas internacionais. Portanto, se esse segmento internalizar o bio-GNL como rota de descarbonização para a frota a metano, a demanda potencial alcança patamares que mudam definitivamente a própria escala do negócio global do biometano.
Fonte: Eixos – Leonardo Campos Filho
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