A Petrobras avançou nas conversas com as distribuidoras estaduais e, em paralelo, abriu o canal de negociações com as indústrias, no mercado livre, para costurar uma saída (ou saídas) para atenuar os efeitos da guerra do Oriente Médio sobre os preços do gás natural no mercado doméstico. A agência eixos apurou, com diferentes agentes do setor, que a criação de um mecanismo de pisos e tetos para reajustes ganhou corpo nas tratativas com as concessionárias de gás canalizado, deixando para trás a ideia do parcelamento – o primeiro aceno da estatal. Já no mercado livre, as negociações são mais abertas e, segundo relato de alguns clientes livres, envolvem um leque de alternativas (no plural). A expectativa no mercado é que as propostas formais da Petrobras, com os detalhes finais, comecem a chegar às distribuidoras no fim do mês ou até o início de julho, a tempo de desarmar a bomba-relógio programada para 1º de agosto, data do próximo reajuste trimestral. A Abegás, representante das distribuidoras, estima que o próximo reajuste contratual da estatal pode atingir os 25% – que, somado ao aumento já anunciado de 19% em maio, pode resultar num impacto de quase 50% no custo da molécula, desde que o conflito no Oriente Médio começou.
Teto (e piso) para reajustes
A ideia de um mecanismo de pisos e tetos é travar um Brent máximo e mínimo a partir do qual o preço do gás é indexado. Para ilustrar, um exemplo meramente hipotético: se o teto é de US$ 90 o barril e a cotação do petróleo chega a US$ 100, a Petrobras aumentará os preços do gás com base no Brent a US$ 90, deixando de se beneficiar de um reajuste integral; mas se o piso é de US$ 60 e a cotação cai para US$ 50, o cliente é quem deixa de se beneficiar de uma redução mais substancial. O barril do petróleo ainda é o principal indexador do gás brasileiro, embora, a partir deste ano, quase 20% do volume vendido pela Petrobras às distribuidoras tenha passado a ser atrelado ao Henry Hub, o preço de referência do gás no mercado dos Estados Unidos. Em que pé está a negociação? As conversas, agora, giram em torno da definição de qual será o nível dos pisos e tetos para o Brent (um teto mais baixo tende a puxar um piso mais alto, por exemplo); e por quanto tempo essa regra vai viger. O mercado aguarda também o que a Petrobras apresentará, formalmente, de contrapartidas. Historicamente, nas negociações com as concessionárias, a petroleira costuma atrelar melhorias nas condições de preço a extensões nos contratos – sejam de prazo e/ou volume. Segundo fontes, uma outra eventual contrapartida pode ser a manutenção do piso por mais tempo que o teto. A busca de soluções comerciais para mitigar os impactos da guerra sobre os preços do gás tem sido uma tendência entre os compradores desde que o conflito sacudiu o mercado global de petróleo e gás a partir do fim de fevereiro. O CEO da GasHub, Antônio Quirino, relatou que já percebia mudanças no perfil de contratação dos agentes, sobretudo na busca de contratos com preços mais estáveis, em meio ao cenário de volatilidade no mercado global. “[Com o início da guerra] a gente começou a ver na plataforma empresas, com a posição de comprador, colocando preços para um, dois, três, quatro, cinco, seis à frente. Preço fixo para travar aquela exposição spot à correção do Brent. Então é um mercado já trabalhando sofisticações naturalmente, sem ter que fazer hedge financeiro”.
Novo contra-ataque a caminho?
Entre os clientes, o movimento da Petrobras tem sido interpretado como um novo reposicionamento comercial da empresa frente aos concorrentes. Desde a abertura do mercado, em 2021, a participação da estatal nas vendas de gás no Brasil caiu de praticamente 100% para cerca de 60%; e, desde 2024, a companhia tem reduzido o fator Brent (percentual do preço do petróleo ao qual o gás é indexado) e criado prêmios de incentivo à demanda, pressionando a concorrência a ajustar suas ofertas. A estratégia da Petrobras tem implicações concorrenciais diretas, já que, como agente dominante do mercado, a Petrobras é também formadora de preços: e se a estatal baixa os seus preços, também pressiona os preços da concorrência para baixo. O diretor-executivo da Abegás, Marcelo Mendonça, afirmou que os concorrentes da estatal estão “ficando para trás”. Ele relata que a Abegás procurou não só a Petrobras, mas também os demais supridores, para negociar, mas que as conversas com os fornecedores privados não evoluíram. “Os demais produtores estão ficando para trás, porque a gente está evoluindo com a conversa com a Petrobras. E a gente não tem uma sinalização dos demais produtores”. A percepção é compartilhada por outros agentes ouvidos pela eixos. Procurada, a Petrobras respondeu que não comenta negociações em andamento.
Chegou a hora de um preço ‘abrasileirado”?
O foco das negociações em curso tem sido desarmar a bomba-relógio do próximo reajuste trimestral da Petrobras. Distribuidoras e a indústria defendem, no entanto, que chegou o momento de se estruturar novos indexadores para o gás no Brasil, mais associados à dinâmica do mercado interno. A discussão tem sido tema recorrente no podcast gas week este ano e resumimos, a seguir, alguns dos pontos levantados: Marcelo Mendonça, da Abegás, por exemplo, conta que a demanda por gás no mercado brasileiro “bateu no teto”, diante do atual patamar de competitividade da molécula, e que a criação de novos indexadores para o gás brasileiro precisa avançar numa pauta à parte. “A gente precisa de uma sinalização de mercado de longo prazo para que a gente possa desenvolver outras aplicações e atrair novas indústrias para ter uma reindustrialização”. Ele sugere que o preço do gás precisa ter indexadores diferentes para aplicações diferentes, a fim de destravar novas demandas.
A indexação do gás ao Brent, cita ele, funciona para a concorrência do gás com substitutos como óleo combustível. Mas não para a substituição de carvão por gás numa siderurgia, por exemplo. “São utilizações que você precisa ter um gás mais competitivo. Então, o indexador não pode ser o Brent, mas o indexador tem que ser o daquela utilização”. Então, se você tiver um indexador para esse mercado, que ele esteja contemplando também um perfil do coque, um perfil do carvão, você consegue viabilizar uma utilização contínua”, exemplifica. O vice-presidente Jurídico e de Relações Institucionais da Ternium Brasil, Pedro Teixeira, já havia alertado, pelo lado da indústria, que a guerra no Oriente Médio reforça a importância de se reduzir a exposição do preço do gás, no Brasil, aos riscos geopolíticos.
“Qualquer indexador deveria estar vinculado ou ter uma relação direta com os custos de produção do gás no Brasil”. “[A Petrobras] tem um benefício, a partir do momento em que há uma variação do preço internacional sem que necessariamente se verifique nenhuma variação nos custos de produção da Petrobras aqui. Então, acho que isso é um debate importante a ser feito. Aqui não é consumidor contra Petrobras, mas é um debate brasileiro”, completou. Há ressalvas nesse debate. Antônio Quirino, da GasHub, por exemplo, entende que o Brasil ainda está distante de hub próprio e vê com ceticismo a substituição à indexação ao petróleo ou Henry Hub. Ainda falta, segundo ele, liquidez para o mercado brasileiro. E cita, “numa comparação um pouco injusta”, que o Brasil registra menos de 2 mil contratos de gás assinados no ano, enquanto nos EUA são 400 mil por dia. Quirino também lista como pré-condicionantes o aumento da padronização de contratos e do próprio número de participantes no Brasil. “E aí sim você deixa de estar exposto ou ao petróleo ou à sazonalidade ou à estação do ano nos Estados Unidos e passa a estar atrelado realmente ao seu mercado doméstico”.
Fonte: Eixos
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