Os preços do gás natural no mercado spot entraram numa curva de alta no Brasil, desde meados de maio, em meio a cortes no lado da oferta.
O estresse nos preços internos contrasta com a desvalorização recente dos preços internacionais e com o passado recente do próprio mercado brasileiro – que, há menos de três meses, vivenciava um caso inédito de gás vendido a um centavo (o milhão de BTU).
Foi um caso pontual, numa operação de balanceamento da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), no Gasbol, mas que ajuda a ilustrar a volatilidade do mercado brasileiro de gás nos últimos meses.
O que o gás a um centavo e o pico mais recente de preços no mercado spot dizem sobre o atual estágio de maturidade do mercado brasileiro?
Guardadas suas devidas particularidades, ambos os casos sugerem um mercado exposto a cortes abruptos na oferta e demanda. Retratos de uma carência de liquidez.
O dia da pechincha
Foi no dia 25 de março. O Gasbol entrou em nível alto de desequilíbrio, com excesso de gás em circulação na malha, e a TBG acionou o mecanismo de balanceamento para se desfazer do “estoque” de gás na rede.
Foi a primeira vez que a transportadora executou uma operação de venda de gás para fins de balanceamento.
– Ao todo foram negociados, naquele dia, 3,7 milhões de m³/dia a um preço médio de R$ 5 o milhão de BTU;
– desse total, 2 milhões de m³/dia foram comprados a um centavo no Gascar (SP); e 350 mil m³/dia a 3 centavos no ponto de saída MS1 (MS)
A precificação chamou a atenção. Até hoje, o segundo menor preço médio já registrado num balanceamento foi de R$ 22 o milhão de BTU, na malha da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), no dia 28/2.
O episódio expôs uma lacuna nos ritos: a TBG não tem – ao contrário de seus pares – um contrato de flexibilidade assinado. O acordo define com um comprador, previamente, volumes e preços para retirada de gás da malha em casos de balanceamento.
Na sequência, a empresa abriu, em maio, uma consulta ao mercado para coletar propostas para um contrato de aquisição de gás para balanceamento. A concorrência está na fase de avaliação das propostas. A previsão é que o serviço comece a ser prestado a partir de outubro até o fim de 2027.
Com a palavra, a TBG
Procurada, a TBG esclareceu que a concorrência aberta, recentemente, é parte de um movimento evolutivo e que não decorre de qualquer direcionamento ou determinação da ANP, nem se trata de “uma resposta a eventos operacionais pontuais”.
A consulta ao mercado foi motivada, segundo a empresa, pelo aumento de players atuando no Gasbol – “o que demanda uma adequação natural e contínua” das ferramentas de gestão.
A companhia informou que possui contrato vigente para o provimento de Gás de Uso do Sistema (GUS) e para serviços de flexibilidade para balanceamento para injeção (mas não para retirada) de gás na malha.
A TBG esclarece, nesse ponto, que já chegou a realizar consulta ao mercado, no passado, para contratação do serviço de flexibilidade para retirada, mas que, na ocasião, “concluiu-se que não seria o momento adequado para a assinatura de contratos, devido à análise de custos fixos e ao impacto que isso traria aos custos do sistema como um todo”.
A transportadora acrescenta que o desequilíbrio do sistema ocorrido no dia 25/3 encontrava-se em nível alto – chegando ao patamar severo no dia seguinte – por conta de programações de correção de portfólio por parte dos carregadores.
E que exerceu sua prerrogativa de balanceamento com a finalidade exclusiva de garantir a segurança operacional e a continuidade da prestação do serviço de transporte.
A operação, segundo a companhia, foi realizada por meio de um ambiente competitivo e aberto à participação de todos os agentes devidamente cadastrados – e que, para fins de transparência e isenção, só tem acesso às propostas após o encerramento do processo.
“Sendo assim, os preços das ofertas são determinados exclusiva e livremente pelo mercado, não cabendo à companhia interferir, atuar sobre a formação desses preços ou gerenciar as estratégias comerciais dos agentes”, pontuou.
A TBG também cita que, de forma transparente, atualiza proativamente todos os carregadores, diariamente, sobre a situação de suas posições.
Passados quase três meses, ainda faltam algumas informações precisas sobre o episódio:
– quem comprou o gás a um centavo?;
– que eventos justificaram, de fato, a operação?;
– e quem ou quais foram os carregadores penalizados, por desequilibrarem as entradas e saídas na malha?
A TBG mantém em sigilo o nome do comprador do gás a um centavo, bem como o carregador penalizado, por questões de confidencialidade.
A ANP não respondeu aos questionamentos da agência eixos.
Na sequência, o pico de preços no spot
O gás a um centavo está longe de indicar uma competitividade estrutural do gás no Brasil. Foi um ponto fora da curva inclusive entre as operações de balanceamento das transportadoras e não guarda qualquer relação com o comportamento de preços no mercado spot daquele momento.
Embora os preços do gás negociado nas operações de balanceamento indiquem alguma tendência de preços, a correlação com o spot não é automática, nem simétrica, explica o editor da Argus, Marcos Mortari.
Nem dois meses depois do episódio de gás a um centavo, o mercado spot brasileiro entrou num momento turbulento – dessa vez associado a rupturas do lado da oferta.
Os preços começaram a subir em meados de maio, quando o Rota 3 interrompeu temporariamente a injeção de gás na malha. O episódio foi agravado, na sequência, pela interdição da P-58, que tirou ainda mais gás do mercado entre o fim de maio e início de junho, por cerca de dez dias.
– Os preços do gás spot saltaram, então, de um patamar sistematicamente abaixo de R$ 1,5 o m³ para acima de R$ 2;
– no pico, chegou a R$ 2,9 o m³ entre os dias 21 e 22 de maio, de acordo com levantamento da Argus.
Em junho, a média beira os R$ 2,15 o m³ – maior patamar desde o início da série histórica da agência, em janeiro deste ano.
Para o vice-presidente do Mercado de Gás da Rystad Energy na América Latina, Vinícius Romano, conta que os preços no mercado spot devem se manter pressionados pelo lado da demanda – já que o fenômeno do Super El Niño deve aumentar a necessidade de despacho termelétrico.
As lições para o Brasil
Para o analista do mercado de gás natural da Wood Mackenzie para o Cone Sul, Eduardo Seraphim, o aumento da volatilidade reflete um mercado com baixa flexibilidade e liquidez.
“O momento ainda é de baixa liquidez no mercado spot no Brasil. E tem um segundo ponto, mais relevante, que é estrutural, que é a baixa flexibilidade no mercado, devido ao fato de termos uma produção de gás associado ao petróleo, offshore”, analisa.
Ele acrescenta que a ausência de um serviço de armazenamento subterrâneo de gás no Brasil também aumenta a exposição do mercado a essas flutuações.
– “Esse é um mecanismo que em mercados mais maduros, como Europa e EUA, serve de colchão para atenuar oscilações de preços”.
– “Não é uma exclusividade brasileira. A Argentina, por exemplo, é um mercado maior que o brasileiro, mas que também tem essa dificuldade de lidar com a volatilidade, porque não tem estocagem. E deve passar a sofrer mais agora com a liberalização de preços”, acrescenta.
Sem estocagem, segundo ele, o Brasil fica dependente da flexibilidade do gás cada vez menos disponível de gás boliviano – e de GNL.
Além desses pontos, agentes costumam estocar gás na malha de gasodutos – o que aumenta a exposição a episódios de excesso de gás na rede.
Os casos recentes de volatilidade no mercado brasileiro deixam claras algumas fragilidades do mercado brasileiro e não só o aspecto da liquidez.
Marcos Mortari, da Argus, cita que existe hoje uma assimetria de informações que prejudica a tomada de decisão dos agentes no dia a dia da comercialização de gás.
Faltam mais informações, por exemplo, sobre a origem dos desbalanços na oferta – como a comunicação de paradas não programadas de ativos.
“Não há um tempo real da entrada e saída na malha. Essa assimetria influencia a dinâmica do mercado. É algo que precisa evoluir”, comenta.
Vinícius Romano, da Rystad, por sua vez, destaca que o aumento das térmicas flexíveis – saldo do 2º Leilão de Reserva de Capacidade– vai impor um desafio adicional para a gestão desse fluxo de gás flexível no mercado brasileiro.
Ele vê, no entanto, com naturalidade a volatilidade mais recente:
“Essa volatilidade de preço é um ótimo sinal dos eventos de mercado… Nosso preço de curto prazo está sendo muito coerente com o que o mercado deveria precificar nesses eventos [relacionados à oferta e demanda]”, comenta.
Fonte: Eixos
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