Deixando de lado as acusações de “greenwashing”, a União Europeia (UE) decidiu ontem avançar com uma polêmica proposta para rotular certos investimentos em energia nuclear e gás natural como sustentáveis nos próximos anos, apesar da forte oposição de alguns países do bloco, ambientalistas e investidores.
A proposta de expandir o que pode ser classificado como uma fonte sustentável de energia expôs profundas divisões entre países que dependem de diferentes tecnologias e ocorre em meio ao aumento dos preços da eletricidade na região e da crise envolvendo Ucrânia e Rússia, principal fornecedor de gás natural do bloco.
A energia nuclear e o gás natural são só dois pontos de um plano que afetará uma série de setores – da silvicultura aos transportes – e que pretende mudar a maneira como as empresas e os fundos tratam o investimento verde.
A Comissão Europeia publicou uma versão revisada de sua proposta, que inclui ajustes nos critérios para rotular o gás natural e a energia nuclear como fontes sustentáveis e mudanças para fortalecer os requisitos de divulgação de informações pelas empresas.
A proposta, apresentada pela primeira vez no fim de 2021, faz parte da “taxonomia verde” da UE, uma análise detalhada do que os reguladores acreditam que deve ser considerado como investimento sustentável. O objetivo é canalizar mais capital para projetos e atividades que foram avaliados por sua sustentabilidade e evitar o “greenwashing”, por meio do qual as empresas exageram suas credenciais verdes.
“As pessoas precisam de uma referência e acho que é aí que entra a taxonomia”, disse Shashank Krishna, sócio do escritório de advocacia Baker Botts, especializado em investimentos em energia sustentável. “Dependendo de como todo esse debate sobre gás e energia se desenrolar, isso pode se tornar a referência global.”
A proposta apresentada pela Comissão Europeia tem boas chances de se tornar lei. Os países e o Parlamento Europeu têm até seis meses para revisar o plano, período durante o qual podem votar contra o projeto, mas o número necessário de votos para bloqueá-lo é alto, de 20 países. Áustria e Luxemburgo ameaçaram recentemente processar o braço executivo da UE se a versão preliminar do plano fosse adotada. Não está claro se os dois países seguirão com o processo após a decisão.
As posições dos Estados membros à proposta variam: a Holanda e a Dinamarca se opõem à inclusão do gás natural porque não dependem dessa fonte, enquanto a Alemanha – que está eliminando a energia nuclear – criticou o rótulo verde para a energia atômica.
O plano da UE não afeta diretamente os investimentos em energia em geral, mas determina apenas se eles podem ser rotulados como “verdes”. Ainda assim, ativistas climáticos e alguns investidores dizem que, se os projetos de energia nuclear e gás natural forem designados como ecologicamente corretos, poderão retirar financiamento de programas menos prejudicais ao meio ambiente em energias renováveis sustentáveis.
A inclusão da energia nuclear e do gás natural foi contestada por ambientalistas e alguns investidores, que alertaram para a possibilidade de a decisão prejudicar a integridade e a utilidade da taxonomia da UE.
Fonte: Valor Econômico / Dow Jones Newswire / Bloomberg
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