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Deborah Sacks: Maior participação do biogás no Reino Unido

Meta do país britânico é ampliar a participação do biogás de 2 TWh/ano em energia equivalente para 20 TWh em 2030

O Reino Unido vem apostando no melhor aproveitamento do biogás para ampliar o mix de fontes de energia renovável em sua matriz energética. Atualmente, o país gera 2 TWh/ano em energia equivalente, tanto para eletricidade, biometano veicular e para injeção na rede como para geração de calor. A meta é chegar a 20 TWh em 2030. Em visita recente ao Brasil, a inglesa Deborah Sacks, especialista em resíduos do Departamento de Comércio Exterior do Reino Unido, conversou com a Brasil Energia sobre a experiência britânica no aproveitamento do biogás e o que tem sido feito para alcançar a meta de geração. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Os biocombustíveis são uma prioridade para o Reino Unido?

A energia renovável, de forma geral, é uma prioridade para o Reino Unido, e os biocombustíveis são parte do mix de fontes, que envolve ainda energia eólica onshore e offshore, mini-hidrelétricas, biogás e energia a partir da combustão e gaseificação do lixo. A biomassa e os resíduos provêm aproximadamente 7% do abastecimento total de energia do Reino Unido, sendo que 40% da nossa matriz é gás natural, 20% nuclear, 20% eólica e o restante do biogás e outras fontes.

Quanto de biogás é produzido? Qual o potencial do mercado?

Há 80 plantas de biometano em operação com capacidade acumulativa de 48 mil Nm³ por hora, das quais 75% usam predominantemente fontes agrícolas e 25%, resíduos industriais e alimentícios. Essa indústria está produzindo 2 TWh/ano de energia e o objetivo é gerar 20 TWh até 2030. Para chegar a essa capacidade, há muito trabalho a ser feito para coletar resíduos alimentícios de fontes domésticas e comerciais. Se coletássemos todos os resíduos possíveis, poderíamos instalar mais 300 plantas de biometano no Reino Unidos até 2021, com investimento de 274 milhões de libras (R$ 1,3 bilhão).

Onde estão as principais oportunidades para produzir biogás no Reino Unido?

Resíduos agrossilvopastoris, incluindo lodo, vão continuar a ser a grande janela de oportunidade, juntamente com resíduos alimentares, principalmente agora que o governo colocou em prática um incentivo financeiro para desenvolver plantas de digestão anaeróbica para gerar biogás desses materiais. Para uso doméstico, o incentivo é de 6,54 libras por kWh e, para uso industrial ou comercial, é de 2 libras por kWh. Caso a planta gere também energia elétrica, o incentivo é de 4,29 libras/kWh. O subsídio para geração de calor é importante porque se trata de uma das maiores demandas do consumo total de energia do Reino Unido, para calefação. Além do incentivo para geração de calor, chamado Incentivo ao Calor Renovável (Renewable Heat Incentive), também há incentivos para o transporte renovável, como obrigações de uso, e contratos para diferença para eletricidade. Cada incentivo é regularmente revisado.

O biometano é bastante injetado na rede de gás canalizado? Há alguma restrição?

Aproximadamente dois terços de todas as usinas de biometano a partir de lodo de esgoto, que usam plantas de biodigestão, injetam o gás renovável purificado na rede de gás. Também há algumas usinas que geram a partir de resíduos alimentares, e rurais também injetam. Para poderem entrar na rede, há uma preocupação grande com a pureza do biometano, que precisa ter 99% de metano. O gás é monitorado no ponto de injeção e, se for detectada qualquer queda na qualidade, a injeção é cortada.

Quanto às tecnologias de waste to energy (WTE) baseadas na queima direta do lixo para geração de energia, como a solução é vista no Reino Unido?

A incineração com geração de energia é utilizada por aproximadamente 9% dos resíduos domésticos, o que corresponde a 4,5% do total dos resíduos gerados. Enquanto as pesquisas hoje são todas voltadas para evitar que os produtos gerem resíduos já na sua fase de manufatura, no momento, ainda há muitos produtos no mercado que não podem ser viavelmente reciclados, e estes são justamente os apropriados para serem incinerados. Um exemplo é o resíduo hospitalar, que sempre estará contaminado e que se forma por uma grande variedade de materiais, em um mix de plásticos, papéis e laminados.

Mas há alguma política especifica para o WTE?

Não há especificamente nenhum incentivo além do naturalmente existente em virtude da tecnologia evitar o imposto sobre aterros, cobrado sobre resíduos biodegradáveis destinados em aterros. O único problema, entretanto, é que há uma certa resistência pública contra a incineração, por conta de seus riscos à saúde quando as emissões não são controladas. Isso o governo gerencia através de condições mais modernas de licenciamento e pelo monitoramento mais avançado de emissões atmosféricas e para a água. Por outro lado, em WTE, há incentivos para geração de energia a partir das chamadas “Tecnologias Avançadas de Conversão”, como, por exemplo, a gaseificação e a pirólise. Isso ainda é importante para torná-las no futuro viáveis em grande escala.

Como o Reino Unido pode ajudar o Brasil a desenvolver seu mercado de biogás?

Mesmo que a indústria de biogás no Brasil já seja bem desenvolvida em algumas áreas, há várias maneiras de desenvolver mais o setor. A experiência do Reino Unido inclui ferramentas de financiamento para as usinas, inclusive mecanismos de garantia; o conhecimento sobre empacotamento de resíduo alimentar, preparação de combustível, sistemas de classificação de resíduos e de lavagem de gases, por exemplo. Talvez, o mais importante seja a solução para coleta e manuseio de matérias-primas, que permite maior entrada de volume de resíduos na cadeia de geração., evitando, com isso, a aquisição de novos equipamentos na usina.

 

Fonte: Brasil Energia

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