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Morales corteja Bolsonaro de olho em renovação do contrato de gás

A inusitada tentativa do presidente boliviano, Evo Morales, de se aproximar do governo de Jair Bolsonaro se dá num momento-chave para a definição do futuro da relação comercial entre os dois países. No fim de 2019 vence o contrato de exportação de gás natural boliviano ao Brasil. A renovação desse contrato é vital para a Bolívia e para Morales.

No ano passado, a venda de gás ao Brasil gerou uma receita de US$ 1,54 bilhão à Bolívia, e representou 94% de tudo o que o Brasil importou da Bolívia, segundo dados do Ministério de Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), que foi incorporado pelo novo Ministério da Economia. Em 2017, a receita com a venda de gás ao Brasil representou 3,2% do PIB da Bolívia.

A estatal boliviana YPFB pretende apresentar neste mês uma proposta de contrato a um grupo de distribuidoras de gás canalizado do Brasil. O cenário de mercado não é tão favorável quanto era 20 anos atrás. O contrato original entre os dois países foi assinado no governo de Fernando Henrique Cardoso.

As importações começaram em 1999, num contexto em que o setor de gás natural dava seus primeiros passos no Brasil.

Agora, com o aumento da produção nacional, a expectativa é que a demanda pelo gás boliviano caia nos próximos anos. O mesmo deve acontecer na Argentina, o segundo maior comprador do gás da Bolívia, que está iniciando a exploração de gás de xisto na campo de Vaca Muerta.

Segundo as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), as importações brasileiras de gás natural devem cair para patamares próximos a 20 milhões de metros cúbicos diários (m3 /dia) a partir de 2022. O contrato atual prevê a importação de cerca de 30 milhões de m3 /dia, dos quais uma primeira parcela, de 18 milhões de m3 /dia, vence neste ano.

O canal de negociação também mudou. Se no passado os contratos eram discutidos numa relação centralizada e estatal, entre representantes dos dois governos, Petrobras e YPFB, o novo contrato deverá ser negociado de forma diferente. A

estatal brasileira já sinalizou que não se encarregará mais de importar todo o volume de gás que ela traz hoje da Bolívia e repassa às distribuidoras. Isso significa que a YPFB teve de passar a negociar diretamente com as concessionárias os novos contratos.

“A conjuntura hoje é diferente de quando estava no poder Luiz Inácio Lula da Silva ou Dilma Rousseff. Morales tem de se preocupar mais porque não está em uma situação favorável”, afirma o ex-ministro da Fazenda da Bolívia Luis Carlos

Jemio, para quem o tratamento amistoso do presidente boliviano, um expoente da esquerda na região, com um líder de extrema-direita brasileiro mostra que a Bolívia já está de olho na renegociação do contrato de gás.

Diante da proximidade do encerramento do contrato Petrobras-YPFB, as distribuidoras Sulgás (RS), SCGás (SC), Compagas (PR), MSGás (MS) e Gas Brasiliano (SP) se uniram em torno de uma chamada pública conjunta para contratar 10 milhões de m3 /dia. Elas esperam receber ainda neste mês as propostas das fornecedoras.

A YPFB já sinalizou interesse em participar, mas o preço pode mudar. O contrato atual segue uma fórmula indexada ao dólar e a uma cesta de óleos, mas uma eventual competição com outras produtoras pode trazer, para as distribuidoras brasileiras, condições contratuais melhores.

“Com a redução prevista das exportações para a Argentina, empresas que atuam na Bolívia terão volumes disponíveis e poderão buscar no Brasil um mercado para esses volumes. Todas essas companhias que atuam na Bolívia e também possuem ativos no Brasil são candidatas naturais [a participar da concorrência]”, comenta Marco Tavares, consultor da Gas Energy.

Este é o caso de produtores como a Shell, Total e Repsol, além da própria Petrobras, que também desponta como candidata natural a suprir as concessionárias.

“Vivemos inflexão nos preços internacionais do petróleo. Eventualmente podem acontecer ofertas boas na concorrência”, diz Cosme Polese, presidente da SCGás,.

O preço do gás vendido às distribuidoras é composto pela parcela do transporte e a parcela da molécula do gás em si (a commodity), que é o principal componente do preço final do gás canalizado. Segundo os dados mais atualizados do Ministério de Minas e Energia, de setembro, o custo do gás importado da Bolívia, vendido pela Petrobras para as distribuidoras, era da ordem de US$ 5,3 o milhão de BTU (unidade térmica britânica), o que equivale a 35% do preço final do gás pago pelos clientes industriais da Gas Brasiliano e a 60% da tarifa de Santa Catarina.

Tavares explica que, em função da amortização da construção do gasoduto Bolívia-Brasil, a expectativa é que também haja espaço para redução na tarifa de transporte, que é quase um quarto do preço do gás vendido pela Petrobras às distribuidoras.

Com necessidade de buscar novos mercados para o seu gás, representantes da YPFB têm visitado o Brasil atrás de novos negócios. A estatal boliviana tem interesse em entrar no setor de geração de energia no Brasil e assinou memorando de entendimentos com o grupo baiano Global para construção de uma térmica a gás em Corumbá (MS). A intenção da YPFB é se tornar sócia da usina.

“Os bolivianos entendem que o Mato Grosso do Sul é uma porta da entrada para as novas fronteiras comerciais da YPFB no Brasil”, comenta o presidente da MSGás, Rudel Trindade, que estuda formar uma joint venture com a YPFB para levar gás comprimido, via ferrovias, para o interior do Estado.

 

Fonte: Valor Econômico

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