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Transporte: solução para oferta

Segmento pouco explorado oferece grande potencial para absorver a oferta de gás proveniente dos campos do pré-sal, mas carece de políticas públicas

O avanço da produção de petróleo proveniente dos campos do pré-sal deve impulsionar o mercado de gás natural no Brasil. Isto porque, com o desenvolvimento de novos campos, a tendência é que a produção do hidrocarboneto oriundo do pré-sal cresça ainda mais dos que os atuais 58,4 milhões de m³/dia. O total produzido atualmente é de 112 milhões de m³/dia. Apesar do grande volume esperado, o setor começa a se preocupar com a destinação do produto, visto que a produção do gás está associada à de petróleo, o que poderia comprometer – e até mesmo interromper – a produção de petróleo caso o mercado não consiga absorver todo o volume gasífero que está por vir.

Isto ocorre porque há um limite para reinjeção do volume de gás nos poços de produção. Uma das possibilidades que vêm sendo debatidas pelo setor é o uso do gás natural no transporte público e em veículos pesados, por meio do gás natural comprimido (GNC) e gás natural liquefeito (GNL). A ideia ganha ainda mais força quando se considera as metas de redução dos gases causadores do efeito estufa, assumidas pelo governo brasileiro no Acordo de Paris.

Atualmente, o hidrocarboneto no mercado veicular brasileiro é utilizado por meio do GNV, essencialmente em veículos leves, cujo consumo é de aproximadamente 6,3 milhões de m³/dia de gás. Em países da Europa, como a Espanha, por exemplo, o uso do gás natural no transporte público e em veículos pesados já está consolidado. A iniciativa reflete a transformação pela qual o mundo passa, com uma matriz energética cada vez mais diversificada. E o gás natural acaba assumindo papel fundamental nessa transição, observa Adriano Pires, presidente Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

No caso do Brasil, avalia, o gás ganha ainda mais destaque em função das vantagens competitivas graças ao pré-sal, com seus grandes volumes prometidos. “Hoje, o GNL está com os preços baixos devido à alta demanda asiática, mas pode servir como transição para o gás nacional”, diz.

Por possuir um modal de transportes essencialmente rodoviário, cujo consumo energético é atendido principalmente por óleo diesel, a ampliação do uso do gás natural para o setor de transportes poderia contribuir, também, para a redução de importações, tanto de diesel quanto de GNL, pelo país nos próximos anos. Hoje, o modal rodoviário consome, em termos energéticos, cerca de 79 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep), sendo que 45,5% dessa energia correspondem ao óleo diesel, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Já os veículos pesados consomem 36 milhões de tep, sendo 97,5% correspondem ao diesel.

 “As incertezas envolvendo o preço do petróleo, que vem variando entre US$ 30 a US$ 40 nos últimos anos, mas que podem chegar a US$ 120 o barril, justificam a necessidade de se buscar alternativas para diminuir a dependência do diesel no setor de transportes”, argumenta José Mauro Coelho, diretor de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da EPE.

Apesar do cenário promissor, o mercado considera como prioritário que o governo estabeleça condições, para a promoção do incentivo ao uso do gás natural no setor de transportes. Para isso, seria necessária a criação de políticas públicas para que os agentes possam investir na ampliação da infraestrutura existente, hoje subaproveitada, segundo Marcelo Mendonça, gerente de Competitividade da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás).

Experiência internacional

Enquanto no Brasil o uso do gás no transporte ainda encontra obstáculos; no exterior,  a situação é bem diferente, tendo o insumo como uma das soluções para pôr fim aos problemas ambientais do setor. Em Madri, na Espanha, por exemplo, mais da metade da frota de ônibus utilizam o gás, por meio do GNL, como combustível. A adoção do insumo na frota de coletivos é uma opção para melhoria climática da capital espanhola, que sofre com problemas relativos à qualidade do ar há pelo menos duas décadas.

Há três anos o município realizou a renovação da frota ao adquirir 200 novos ônibus, sendo 170 utilizando o GNC como meio de propulsão e o restante em propulsão híbrida. Com isso, a cidade espanhola passou a contar com 250 coletivos a GNC. Para 2019, mais 250 ônibus devem ser incorporados à frota, sendo majoritariamente a gás comprimido, diz Luís Tejero, subdiretor geral de Energia e Mudanças Climáticas da Prefeitura de Madri.

Outra cidade espanhola, Barcelona, também vem apostando no GNL para o abastecimento da frota de ônibus urbanos. Lá, hoje, são cerca de 2,3 mil coletivos a gás liquefeito circulando pela cidade. Segundo Benito Páramo, consultor em mobilidade sustentável e energias alternativas, a escolha por GNL se deve porque um veículo a gás liquefeito possui capacidade de autonomia três vezes maior do que um modelo a GNC.

Mais próxima da realidade brasileira, a Colômbia levou adiante um programa de modernização da frota na cidade de Cartagena, também baseado no uso do gás. Com um sistema de transporte antigo e sucateado, a prefeitura investiu aproximadamente US$ 200 milhões para construir corredores exclusivos por onde circulariam os ônibus a GNV. Atualmente, a totalidade da frota na cidade colombiana circula com coletivos a GNV.

Corredor azul: incentivo ao uso

Um dos obstáculos para aprofundar o uso do gás em veículos pesados envolve a questão de postos de abastecimento no país, que ainda são poucos. Uma iniciativa que pode resolver o problema é a implantação do corredor azul, projeto desenvolvido pelo Research Centre for Gas Inovations (RGCI), ligado à Universidade de São Paulo (USP), que mapeou as rodovias dentro do estado com uma rota segura para o reabastecimento de gás em caminhões.

Segundo a pesquisadora Dominique Mouette, as rotas pesquisadas seriam um incentivo para o uso do GNC e GNL por veículos pesados e, por isso, a existência de postos de abastecimento de gás se torna essencial para essa decisão.

O projeto tomou como base os corredores de GNC e GNL existentes em países da Europa. No caso do gás comprimido, a análise foi feita em cima de um traçado de mais de 1,8 mil km que liga Berlim, na Alemanha, a Novgorod, na Rússia. Neste corredor, há um posto em um raio de 100 km de alcance, o que possibilita ao motorista sair da capital alemã e podendo reabastecer na vizinha Polônia, nas cidades de Poznam e Vasóvia, por exemplo.

No caso do GNL, o corredor liga o Reino Unido a países como Itália, Suécia, França, chegando ainda à Espanha e Portugal, onde existem aproximadamente 13 estações de abastecimento de GNL já projetados para os próximos anos.

O estudo apresentou cenários, como uso da liquefação em pequena escala, que abrange uma área menor do estado de São Paulo, e o uso de liquefação central, que dá mais chance de os veículos alcançarem uma área maior.

Fonte: Brasil Energia

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