A rede de pesquisadores Global Energy Monitor destacou em um novo relatório que, apesar da recuperação da pandemia estar se acelerando em partes do mundo, 38% do fornecimento total planejado de gás natural liquefeito (GNL) está enfrentando atrasos nas decisões finais de investimento ou outras interrupções graves de projeto.
A notícia é preocupante para o Brasil, afirmou o grupo. Fora da Ásia, o país é um ponto de destaque de investimentos no setor, com 13 terminais de importação de GNL em construção ou pré-construção. A GEM lembrou que o governo federal está impulsionando a infraestrutura de gás e a criação de novas termelétricas, tanto pela lei do gás sancionada em abril, como pelos jabutis incluídos na Medida Provisória 1.031/2021, que permite a privatização da Eletrobras e determina a contratação de 8 GW de térmicas a gás com 70% de inflexibilidade ao longo da década.
No ano passado, apenas um projeto de GNL chegou a uma decisão final de investimento no mundo: o terminal Costa Azul, no México. Os custos excedentes foram exacerbados pela Covid-19, uma vez que muitos recursos humanos não puderam realizar o trabalho. “O tamanho dos projetos expôs os investidores a perdas catastróficas”, disse Lydia Plante, a principal autora do relatório.
Barreiras
As preocupações climáticas são o maior entrave do gás na Europa, mas regiões-chave para esse mercado, como os EUA, foram afetadas também pelo fornecimento barato de Qatar e Rússia. O relatório aponta ainda a vulnerabilidade dos terminais de gás em ambientes de instabilidade política, e cita como exemplo os ataques de insurgentes às instalações da Total Energies em Moçambique, ainda em construção.
A petroleira francesa declarou “força maior” para o encerramento do projeto de US$ 20 bilhões financiado por um amplo consórcio, incluindo investidores privados, bancos públicos e instituições de crédito dos Estados Unidos, China, Japão e União Europeia.
Outro impacto negativo para o ambiente de investimentos em gás foi o inédito relatório carbono zero da Agência Internacional de Energia (AIE) em maio. A entidade vê a demanda de gás caindo significativamente nos próximos anos e uma mudança global para a descarbonização total do setor energético viabilizada pela energia renovável. De acordo com a AIE, o comércio interregional de GNL precisaria diminuir rapidamente após 2025 sob um cenário zero líquido em 2050.
“O GNL foi vendido aos formuladores de políticas e aos investidores como uma aposta limpa e segura. Agora todos esses atributos se transformaram em responsabilidades. Os cenários recentes da AIE para 2050 mostram que o GNL não tem lugar num futuro energético seguro para o clima. A indústria perdeu sua auréola climática, e a única questão é se a Administração Biden [presidente dos EUA] irá desperdiçar capital político precioso para apoiar potenciais elefantes brancos”, afirmou Plante.
A América do Norte responde por 64% da capacidade global de exportação em construção ou pré-construção. O continente também tem os projetos mais conturbados, com 11 dos 26 terminais de exportação de GNL relatando atrasos nas decisões finais de investimento ou outras perturbações graves, de acordo com o estudo.
Por fim, o relatório mostra que a capacidade de importação de GNL continua em rápida expansão, com projetos suficientes em construção ou pré-construção para aumentar a capacidade global em 70%. Da capacidade em construção ou pré-construção, 32% está na China, 11% está na Índia e 7% está na Tailândia.
Fonte: EnergiaHoje
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