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Cotação do petróleo sinaliza redução dos combustíveis

A queda abrupta do petróleo, registrada ontem, abre espaço para uma redução nos preços dos combustíveis praticados pela Petrobras, no mercado doméstico, no curto prazo. O impacto da desvalorização da commodity sobre a economia brasileira, em relação à arrecadação da União, Estados e municípios brasileiros com as receitas petrolíferas, por sua vez, deve ser limitado. Analistas não veem indícios, pelo menos por ora, de mudanças estruturais na cotação da commodity, ao ponto de abalar a expectativa de recorde na arrecadação de royalties e participações especiais em 2021.

Em geral, qualquer queda no preço do barril afeta positivamente a economia nacional, do ponto de vista da inflação dos combustíveis, mas negativamente as perspectivas de arrecadação dos cofres públicos com royalties.

Ontem, o mercado ligou o sinal de alerta, após a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (a Opep+) anunciarem um aumento da produção, num momento em que as novas variantes de covid-19 trazem sinais de preocupação sobre a recuperação da economia global. O barril do tipo Brent, referência global, recuou 6,6%, para US$ 68,62.

Desde o início de junho, a commodity vinha se sustentando acima dos US$ 70, ante os sinais de recuperação da economia global, mas, ontem, esbarrou num movimento generalizado de aversão a risco dos investidores frente à propagação das variantes da covid. O mau humor do mercado se refletiu entre as petroleiras. No Brasil, as ações ordinárias da Petrobras recuaram 1,18%, a R$ 26,85, na B3.

A expectativa é que a commodity continue a operar com volatilidade. Casas de análise, como a S&P Global Platts e Goldman Sachs, contudo, não veem uma ruptura nos fundamentos do mercado. Sem mudanças estruturais à vista, tudo indica que a arrecadação de royalties e participações especiais deve bater recordes este ano. Segundo projeções da Agência Nacional de Petróleo (ANP), essas duas receitas devem somar, em 2021, R$ 62,42 bilhões – uma alta de 33,6% em relação a 2020 e de 11,5% ao recorde de 2019.

O patamar histórico está relativamente próximo de ser alcançado. Um levantamento da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) mostra que, só no primeiro semestre, a arrecadação do Estado do Rio com royalties já alcançou 72,57% do arrecadado em 2019. Mesmo com a desvalorização de ontem, o Brent ainda se situa acima das projeções da ANP, que considera, para 2021, um barril a US$ 62,21 – abaixo da cotação média do petróleo este ano, até agora, de US$ 65,64.

Já do ponto de vista do impacto do petróleo na inflação, a queda dos preços da commodity abriu espaço para uma redução nos preços dos derivados – num momento em que Jair Bolsonaro acena para um novo corte nos impostos sobre o diesel, na tentativa de amenizar a insatisfação dos caminhoneiros com o aumento de 3,7% no derivado, no início do mês. A consultoria StoneX estima que a Petrobras tem espaço para cortar em R$ 0,17 o litro do diesel e em R$ 0,06 a gasolina – produto que a estatal vinha comercializando, até então, com defasagem ante a paridade de importação.

Resta saber se os preços sustentarão o movimento de baixa e como a empresa reagirá.

“Com a queda dos preços no mercado internacional, as janelas para o diesel ficaram abertas [para importadores privados] e a gasolina chegou na paridade”, disse o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo.

Desde que assumiu a presidência da Petrobras, em abril, Joaquim Silva e Luna tem prometido reduzir as volatilidades nos reajustes e repassar, para as distribuidoras, impactos conjunturais.

Em relatório sobre o acordo da Opep+, o Goldman Sachs destacou que, apesar do aumento esperado na produção dos membros do grupo a partir de agosto, não há nada, por ora, que atrapalhe a crença de curto prazo de que os preços vão continuar subindo.

Segundo o banco, a “alta moderada” da produção manterá o mercado deficitário nos próximos meses. O Goldman considera que, diante da incapacidade de vários membros do Opep+ de cumprir com suas cotas, a produção provavelmente crescerá de 300 mil a 350 mil barris por dia a cada mês. Ou seja, abaixo dos 400 mil barris/dia estipulados no acordo. A instituição acredita numa volatilidade a curtíssimo prazo. “É certo que os preços do petróleo podem continuar a girar nas próximas semanas, devido às crescentes preocupações com a variante Delta [da covid-19] e a velocidade mais lenta de desenvolvimento da oferta em relação aos ganhos recentes de mobilidade”, ressalvou.

O gerente de análise de suprimentos e produção da S&P Global Platts, Ashutosh Singh, também destaca que, apesar da expectativa de aumento da oferta da Opep+, os fundamentos de mercado a curto prazo continuam apertados.

No fim de semana, a Opep+ chegou a um acordo para elevar a produção mensal de petróleo do grupo a uma média de 400 mil barris/dia por mês até o fim do ano, a partir de agosto. Após a paralisação das negociações há três semanas, em meio a um impasse entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, o acordo acabou em linha com as previsões do mercado.

O analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman explica que a novidade do acordo foi o alongamento da meta de recuperar toda a produção cortada no começo da pandemia até o fim de 2022, e não mais abril do ano que vem, como inicialmente previsto. Ele vê como positivo o fato de as partes terem conseguido chegar a um acordo de forma rápida.

“Pensando em estabilidade de preços, isso [unidade do bloco] é bom. Mas precisamos ver ainda como vai ser atitude dos demais membros do bloco [em relação às cotas individuais]”, comentou.

 

Fonte: Valor Econômico

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