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Ainda existem obstáculos para as distribuidoras de gás do Brasil

Argus entrevista  o diretor de estratégia e mercado da Abegás, Marcelo Mendonça

Os produtores brasileiros precisam aumentar a quantidade de gás natural que oferecem para estimular os investimentos em infraestrutura de gás e impulsionar a demanda. Cerca de 15 milhões de m³ / d (529,5 milhões cf / d) que estão sendo reinjetados nos poços de produção – uma prática comum para estimular a produção de petróleo – poderiam encontrar compradores imediatamente a jusante. À medida que o mercado brasileiro de gás passa de monopólio para mercado aberto, os distribuidores de gás buscam novos fornecedores para atender 3,9 milhões de clientes. Mendonça disse ainda que os distribuidores estão dispostos a diversificar os fornecedores, mas são prejudicados pelo acesso limitado à infraestrutura e pela falta de transparência. Os destaques editados a seguir:

Como o mercado brasileiro de gás vê a atual crise de energia e como ela pode afetar as distribuidoras?

Muitos atores não permitem o debate sobre a inclusão do gás no setor elétrico, o que é uma pena. O Brasil está usando mal a capacidade térmica. Não o estamos usando nos momentos certos, para ajudar na recuperação de reservatórios de água, e despachamos energia a gás quando são necessários os geradores mais caros, mesmo os menos eficientes. O Brasil deveria ter usado mais usinas a gás no primeiro semestre de 2020, para economizar reservatórios de água.

Temos uma alta taxa de reinjeção no Brasil, em parte devido à falta de infraestrutura de dutos e um mercado subdesenvolvido, mas também como resultado de decisões do produtor. Acreditamos que pelo menos 15mn m³ / d do gás do pré-sal possam deixar de ser reinjetados atualmente, de um total de 60mn m³ / d.

A falta de infraestrutura suficiente – como o gasoduto Rota 3 do pré-sal [que deve entrar em operação ainda este ano com 18 milhões de m³ / d de capacidade] – significa que estamos importando GNL. Mas, além da nova infraestrutura, precisamos de uma demanda firme de gás para escoar a oferta de gás estimada para os próximos 10 anos. É preciso desenvolver mais mercados e usar racionalmente as usinas a gás.

Que outros mercados poderiam ser desenvolvidos?

Gás para veículos pesados. Sabemos que o governo brasileiro é sensível à possibilidade de desenvolvimento de novos mercados de gás. As empresas locais de distribuição de gás fizeram um excelente trabalho ajudando a desenvolver o mercado de veículos pequenos. A participação do transporte na demanda brasileira de gás a 30pc é maior do que o uso da indústria de 32pc.

Mas o hidrogênio poderia ultrapassar o uso do gás natural para veículos pesados?

No Brasil tendemos a olhar o que é melhor e acabamos esquecendo de fazer o que é possível. De onde vem esse hidrogênio? Se em parte se origina de combustíveis fósseis, ainda não temos energia limpa. Ou se for produzido a partir do processo de eletrólise, estaríamos usando energia cara e poluente. Cada país deve explorar seu potencial.

Os distribuidores de gás estão dispostos a deixar o mercado de gás aberto?

Antes mesmo da abertura do mercado de gás, as distribuidoras vêm buscando diversificar seus fornecedores de gás. E essas empresas enfrentam muitas dificuldades para comprar gás. Os distribuidores querem diversificar o portfólio de fornecedores, mas ainda existem algumas barreiras em nosso mercado. Por exemplo, na região sul é difícil acessar o transporte de gás da Bolívia. A forma como está sendo conduzida a abertura do mercado de gás, com diminuição da participação da Petrobras, é preocupante. Essa transição é mais complicada se não for conduzida de forma transparente. Os distribuidores estão preocupados que as mudanças possam fazer com que os preços do gás aumentem em vez de cair como esperado.

Como as distribuidoras de gás estão contribuindo para a abertura do mercado de gás?

As empresas estão trabalhando na ampliação das redes de distribuição de gás canalizado. Nossa rede cresceu 100% em 10 anos, enquanto os dutos de transporte de gás cresceram 2% no mesmo período. Os distribuidores estão fazendo sua parte. Talvez possamos ter uma agenda mais agressiva em alguns estados, mas estamos ajudando a desenvolver a infraestrutura e vamos aumentá-la para atender ao aumento da demanda. E é por isso que estamos preocupados com o desenvolvimento de projetos upstream e midstream. É necessário um aumento da oferta de gás para viabilizar esses investimentos. Não haverá novo mercado de gás sem gás novo. Caso contrário, estará apenas dividindo a oferta.

Fonte: Argus

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