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‘O gás natural pode impulsionar a indústria fluminense’

Em entrevista a O DIA, o economista Israel Sanches Marcellino fala sobre o que é necessário para o recurso, abundante nas reservas de pré-sal, fazer a diferença no desenvolvimento econômico

Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e antigo integrante da equipe de Assessoria Fiscal da Assembleia Legislativa, o economista Israel Sanches Marcellino se dedica ao estudo do desenvolvimento regional do estado. No contexto da possível crise energética que se desenha para o ano que vem, ele fala, em entrevista ao jornal O DIA, sobre como um de nossos recursos naturais pode não só suprir a demanda por energia, como ser o combustível do fortalecimento industrial fluminense: o gás natural. “Nossas reservas superam as bolivianas”, conta.

O DIA: Como o senhor vê a chegada da termelétrica GNA, inaugurada na semana passada no Porto de Açu?

Israel: É uma boa notícia para o estado do Rio de Janeiro. Ela ajuda a equacionar um gargalo da crise energética, que o Brasil está arriscado a enfrentar. Além disso, a instalação também traz a possibilidade da vinda de outras empresas e ajuda a avançar o projeto do Porto de Açu, que chegou a ser desacreditado. Também pode levar oportunidades de desenvolvimento para a Região Norte Fluminense, sem contar as receitas que serão geradas para os cofres públicos. Mas não podemos abrir mão do olhar crítico: apesar de todos esses pontos positivos, as autoridades devem ter em mente que a usina trabalha com gás liquefeito (GNL), que é importado. Isso pode aprisionar o estado na condição de importador de gás, quando, ao mesmo tempo, temos reservas enormes de gás natural, que superam as bolivianas.

E por que a opção pelo gás liquefeito em vez do natural? Quais são as diferenças?

O gás natural é um insumo muito interessante, que, além de gerar energia, também pode ser usado por uma gama enorme de ramos da indústria de base química e mineral —do vidro aos fertilizantes. No entanto, ele depende de gasodutos para transportar o produto do local de extração — seja em terra firme ou alto mar, como é o caso do pré-sal —ao ponto onde será usado. E essas estruturas envolvem contratos complexos e com volumosos investimentos, portanto, arriscados. A tecnologia de liquefação resolve esse problema, mas vejo como uma solução no curto prazo. Já a tecnologia de gasodutos gera significativos benefícios no longo prazo, quando o investimento é amortizado.

E, na sua opinião, qual o melhor caminho para o Brasil?

Para o país e para o Rio, a opção de usar o gás do pré-sal, através de gasodutos, tende a ser um caminho mais estratégico para o desenvolvimento. Por isso, acredito que o Estado tem um papel fundamental para desenvolver esse mercado, até mesmo para termos ganhos tecnológicos. Os agentes privados não são capazes de botar esse mercado de pé sozinhos.

O que poderia ser feito?

A experiência mostra que a iniciativa privada dificilmente vai agir sozinha. Uma das formas de atuação do Estado é como coordenador da iniciativa privada: por exemplo, no Rio, temos duas indústrias siderúrgicas que poderiam consumir esse gás. Num primeiro momento, o poder público faria a ponte entre a Petrobras e esse consumidor final, para verificar o que seria necessário para fechar esse contrato. Depois, entrando com garantias e financiamento para viabilizar o contrato de compra e venda, vinculados a projetos de construção de gasodutos. Reduzindo as incertezas, aportando recursos e viabilizando a infraestrutura, temos os principais elementos para se reduzir o preço do gás do pré-sal.

Quais são as vantagens do gás?

Do ponto de vista ambiental, ele é mais “limpo” do que o petróleo, e apontado como uma ponte dos recursos fósseis não renováveis para outras energias que estão surgindo. E como fazem parte da mesma indústria, é possível avançar de forma mais gradativa para uma economia de baixo carbono. Com todas as nossas reservas, o gás natural pode suprir a nossa necessidade de energia e impulsionar a indústria fluminense, que sofre um processo de fragilização de décadas. Temos, no entanto, que atacar o problema da reinjeção.

O que é isso?

Em vez de ser usado como produto final, boa parte do gás extraído é jogado de volta para o subsolo para aumentar a pressão dos reservatórios e, assim, obter mais petróleo. Ou seja: estamos perdendo uma série de oportunidades.

 

Fonte: O Dia (RJ)

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