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Brasil bate recorde na compra de gás dos EUA após crise hídrica

A crise hídrica fez o Brasil comprar volumes recordes de gás dos Estados Unidos, com o país passando do sétimo lugar no ranking de maiores importadores de gás natural liquefeito (GNL) americano, em 2020, para o quarto neste ano. As importações de GNL, que respondem por quase um quarto da oferta de gás hoje no Brasil, mais que dobraram no último ano e e devem se manter alta no médio prazo, afirmam analistas.

No ano passado, o Brasil importou 3,29 bilhões de m³ de GNL, pelos quais pagou US$ 677,24 milhões, segundo dados da Global Trade Tracker, compilados pela consultoria Wood Mackenzie. Neste ano, de janeiro a setembro, o país comprou 7,19 bilhões de m³ de GNL, a US$ 1,85 bilhão.

Hoje o gás liquefeito dos EUA responde por 90% do volume total de GNL importado pelo Brasil.

Em 2020, o Brasil importou quase 160 milhões de m³ de Trinidad e Tobago, 93,87 milhões de m³ de Angola e 3,03 bilhões de m³ dos EUA. Neste ano até setembro, comprou 252,68 milhões de m3 de Trinidad e Tobago, 136,59 milhões de m³ de Angola, 6,50 bilhões de m3 dos EUA, e mais 307,21 milhões de m³ do Qatar.

O Brasil esporadicamente importa GNL da Argentina para abastecer a Usina Termelétrica de Uruguaiana, mas que chega a ficar meses sem despachar.

“A principal razão pela qual o Brasil compra hoje muito mais gás dos EUA é a crise hídrica. Houve um despacho termelétrico muito grande que teve de ser suprido por volumes adicionais de gás”, afirma Henrique Anjos, analista do setor de gás GNL para América Latina da Wood Mackenzie. “Além disso, a redução do contrato com a Bolívia cortou em um terço a oferta de gás boliviano, que por anos foi a principal fonte da Petrobras para cobrir oscilações da demanda doméstica. Agora o Brasil importa tudo o que consegue da Bolívia e supre o que falta com GNL”.

Dados da balança comercial de novembro, divulgados pelo Ministério de Economia, mostram que no acumulado do ano as importações de gás natural, liquefeito ou não, aumentaram 273,6% em valores, na comparação com 2020.

Segundo o último Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, do Ministério de Minas e Energia, de agosto, a produção doméstica representa hoje 55,12% da oferta de gás natural do Brasil hoje, enquanto a importação de gás – incluindo o GNL – responde por 44,87%. Em 2019, o GNL respondia por 9,91% da oferta total. Passou a 10,91% em 2020 e agora está em 23,72%.

Com a necessidade de despacho de mais térmicas por causa da crise hídrica e menos gás importado da Bolívia, as importações de GNL dispararam.

A média de oferta de gás importado, segundo o MME, passou de 26,26 milhões de m³ / dia no ano passado para 42,38 milhões de m³ neste ano – chegando a picos de 54,50 milhões de m3 em julho e 51,81 milhões de m3 em agosto.

Enquanto a média de gás vindo da Bolívia passou de 17,88 milhões de m³ /dia em 2020 para 19,96 milhões de m³ /dia em 2021, a média de regaseificação de GNL  importado foi de 8,38 milhões de m³ /dia em 2020 para 22,41 milhões de m³ /dia em 2021.

O problema é que o preço do GNL é mais do que o triplo do importado da Bolívia ou produzido aqui, diz Anjos. O GNL que sai dos EUA custa US$ 9,68 por milhão de BTU. Adicionando o valor do frete e o custo de regaseificação, pode chegar a US$ 16,7/milhão de BTU.

O gás produzido domesticamente custa entre US$ 3,5 e US$ 4/milhão de BTU, diz Anjos. E o gás que vem da Bolívia custa US$ 5,7/milhão de BTU quando chega a Mato Grosso, na fronteira.

“Mesmo se o Brasil quisesse voltar a comprar os 30 milhões de m³ /dia da Bolívia, como era no contrato anterior, teria dificuldade porque a produção de gás do país vizinho vem caindo. Estimamos que esteja hoje por volta de 44 milhões de m³ /dia, ante média de 52,9 milhões de m³ /dia em 2018”, diz Anjos.

Dentre as razões por trás do aumento expressivo das importações de gás dos EUA, estão a maior disponibilidade de envios no mercado spot (de curto prazo) e o fato de os terminais americanos estarem no Oceano Atlântico, facilitando o transporte para cá.

Atualmente o Brasil possui quatro plantas de regaseificação, sendo três da Petrobras. Uma na Baía de Guanabara, no Rio, outra na Baía de Todos os Santos, na Bahia, e outra em Pecém, no Ceará. A quarta planta é da empresa New Fortress Energy, em Sergipe.

No início de novembro, a ANP autorizou a construção do Terminal Gás Sul na Baía de Babitonga, em Santa Catarina. O terminal terá uma planta de regaseificação e deve ficar pronto no ano que vem.

O GNL e as térmicas são um backup caro ao Brasil e deveriam ser utilizados com parcimônia, diz Edmar Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC Rio.

“O que ocorre no Brasil é que contratamos térmicas com previsão de despacho muito baixa. Mas nos últimos anos, essas previsões não se confirmaram e estamos usando as térmicas de forma muito intensiva. E isso é um problema porque, no fim das contas, encarece a energia elétrica que consumimos”, afirma. “As térmicas são um seguro caro ao Brasil. E, da maneira como estamos fazendo, é como se batêssemos o carro toda hora, o que acaba saindo muito caro”.

Questionada se o Brasil estava buscando alternativas ao GNL caro, a ANP afirmou que “outorga as autorizações de importação de gás natural, incluindo GNL, mas não interfere nas negociações realizadas pelos agentes econômicos”. “O GNL poderá ser adquirido de qualquer país produtor ou de fornecedor do produto capaz de honrar o contrato de compra e venda”, afirmou em nota, ao acrescentar que não possui informações sobre de quais países o Brasil importará gás no próximo ano.

O cenário mais esperado é que o Brasil continue importando grandes volumes de GNL dos EUA pelo menos até maio do ano que vem. “Entramos agora no período chuvoso e isso é o que determinará como serão essas importações daqui para frente. Se não for muito bom, a tendência é mantermos esse nível de importação a partir de maio”, diz Anjos.

O analista acrescenta que no leilão de energia de outubro passado foram contratadas mais usinas a gás, que devem começar a operar em maio, mantendo a demanda por gás alta. A produção doméstica só deve acelerar a partir de 2027, quando começam a operar campos do pré-sal na Bacia de Campos e na Bacia de Santos e do pós-sal de águas profundas em Sergipe.

“A boa quantidade de chuva que tivemos recentemente funcionou para evitar racionamento, mas não garante o enchimento dos reservatórios brasileiros, que precisariam de mais de um ano com muita chuva para serem preenchidos”, diz Almeida. “Então, para sair do nível critico e dar certo conforto ao setor elétrico, vamos continuar despachando termelétricas.”

A previsão, portanto, é que o Brasil continue importando GNL, que deve encarecer nos próximos meses, afirma João Vitor Velhos, gerente técnico da consultoria Gas Energy.

“Tem um fator importante que é a demanda de gás. Estamos entrando no inverno no hemisfério Norte, o que deve gerar grande estresse porque esses mercados demandam gás para aquecimento, calefação. Por isso não esperamos que os preços baixem nos próximos trimestre”, argumenta Velhos. “Pelo lado brasileiro, houve melhora do nível dos reservatórios, mas a necessidade de importação ainda é elevada. E as cargas dos próximos trimestres serão caras”.

 

Fonte: Valor Econômico

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