Na visão da Abiogás, possíveis incentivos do governo para a produção de hidrogênio de baixo carbono, a partir de gás natural com captura de carbono (CCS) – conhecido como hidrogênio azul – podem levar a uma manutenção da dependência dos combustíveis fósseis.
“É importante que se dê um olhar diferente entre o fóssil com CCS e o renovável. É importante que se dê um olhar específico para o renovável”, afirma Tamar Roitman, diretora executiva da entidade.
“O fóssil já teve muitos incentivos por muito tempo e, simplesmente fazer o CCS, estaríamos mantendo também a dependência do fóssil. Não fazendo efetivamente a substituição quando temos outras fontes de renováveis”, diz.
Biometano, um produto do biogás, é um substituto direto do gás natural, podendo ser misturados, como já ocorre em estados como o Ceará, pioneiro na distribuição do biocombustível. “O biometano está muito integrado com o gás natural”, explica Roitman.
Recentemente, a associação, ao lado da Abeeólica (energia eólica), Absolar (geração solar fotovoltaica) e a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, fez uma lista com 17 pontos para estimular a produção do hidrogênio renovável – feito a partir de fontes renováveis, como solar, eólica e biomassa.
A proposta foi entregue ao deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), presidente da comissão especial de Transição Energética e Hidrogênio Verde, que prepara um marco legal para o hidrogênio.
A grande discussão ronda em torno da nomenclatura. Se o marco legal contemplará incentivos ao hidrogênio de baixo carbono, o que incluiria o hidrogênio azul, ou apenas ao hidrogênio renovável. Sinalizações do governo indicam que o projeto de lei preparado pelo Ministério de Minas e Energia será voltado para o de baixo carbono.
“Entendemos que devem ser incentivadas as fontes renováveis com esse olhar de fazer a substituição do fóssil (…) O gás natural não é uma fonte renovável. Ele pode ter menos carbono quanto tem o CCS, mas o hidrogênio de gás com CCS continua sendo uma fonte fóssil”, diz Roitman.
A frente parlamentar se reuniu, na Câmara dos Deputados, e debateu justamente manter em aberto o “cardápio” de rotas para produção do hidrogênio.
“Ninguém vai poder segregar procedimentos. Estamos querendo que a nova denominação [da comissão] tenha essa abrangência, com foco em hidrogênio de baixa intensidade de carbono”, disse Jardim.
Paralelamente, o governo também prepara propostas para envio ao Congresso Nacional. Políticas para o hidrogênio, bioenergia e eólicas offshore estão na agenda setorial para o segundo semestre legislativo.
Sinergias com o gás natural
A Abiogás entende que a indústria do biogás e biometano no Brasil possui muitas sinergias com o gás natural. “O biometano está muito integrado com o gás natural, inclusive mais que o hidrogênio”, explica Roitman.
Segundo ela, há uma complementaridade do biogás com o gás natural para fazer a transição energética gradual, antes do mesmo do hidrogênio.
Para a diretora, é necessário em um primeiro momento “substituir a importação de diesel por gás natural e biogás nacional”, uma vez que já são tecnologias disponíveis e competitivas para o transporte pesado.
Gás natural e biogás também podem compartilhar a mesma infraestrutura, tanto na produção do hidrogênio, como para transporte e distribuição. “As mesmas plantas que hoje estão produzindo hidrogênio com gás podem substituir esse insumo por biometano, já que a molécula é exatamente a mesma”, pontua. “A aplicação é exatamente a mesma, a infraestrutura de transporte e distribuição é a mesma do gás natural, poder ser injetada na rede de gasodutos”.
O setor de fertilizantes é um dos casos em que o biogás já pode ser utilizado para descarbonização da indústria antes da chegada do hidrogênio renovável ao mercado. “O biogás tem tudo a ver com essa pauta do fertilizante. Estamos muito empenhados em demonstrar o biometano como essa fonte para os fertilizantes de origem renovável e substituir o fertilizante sintético e importado”, defende Roitman.
O exemplo mais emblemático é o da Yara, gigante do setor de fertilizantes, que vem produzindo amônia verde, utilizando o biogás como matéria-prima. Após dois anos de transição, a companhia afirmou que conseguiu, no suprimento para o Brasil, aderir às sanções europeias contra a Rússia e se tornar 100% independente do país, segundo informações da Folha de S. Paulo. Por aqui, a Yara planeja substituir o gás natural fóssil por biomassa na produção de nitrogenados.
Fonte: Epbr
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