A Petrobras entrou de vez no mercado livre de gás natural e reassumiu, este ano, a liderança no segmento – que nasceu ancorado em contratos da estatal em 2021, mas que só começou a ganhar tração em 2024 a partir da chegada dos comercializadores privados. Ao todo, a estatal triplicou a sua base de clientes livres no primeiro semestre deste ano e se tornou a empresa com maior número de consumidores nesse ambiente de contratação. Levantamento da agência eixos, com base em dados públicos da ANP, mostra que a Petrobras captou 12 novos clientes industriais no primeiro semestre. Segundo a própria Petrobras, o volume contratado pela companhia na modalidade alcançou os 6 milhões de m³/dia no segundo trimestre – o que equivale a cerca de 14% do gás vendido pela empresa no período. A investida da estatal no mercado livre se intensificou, sobretudo, após o seu reposicionamento comercial em 2024, para fazer frente à concorrência. E após a entrada em operação da unidade de processamento do Complexo Boaventura (RJ), que ampliou em 21 milhões de m³/dia a capacidade de processamento de gás nacional. Na semana passada, a estatal ultrapassou os 50 milhões m³/dia de gás processado em suas UPGNs. Um marco. “A gente empreendeu um esforço muito grande para melhorar essa logística, para botar mais gás em terra, para melhorar os contratos, para atender mais o mercado da forma que nós achamos que ele merece”, afirmou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.
Petrobras reduz preços e amplia flexibilidade
Magda afirmou em suas redes sociais, na semana passada, que a empresa tem conseguido entregar o seu gás, hoje, no mercado livre, a um preço de US$ 6 a US$ 7 o milhão de BTU, nos contratos mais flexíveis. Um ganho de competitividade inegável em relação aos valores praticados há um ano – de US$ 9 a US$ 11 o milhão de BTU, nos contratos com as distribuidoras – mas que reflete aspectos conjunturais. A queda (gradual) dos preços da companhia é uma combinação entre a oferta de contratos com melhores condições comerciais no mercado livre; e a desvalorização recente dos preços internacionais do petróleo – parte importante da indexação dos contratos e que ajudou a puxar o preço do gás para baixo nos últimos meses. E não é só preço. No mercado livre, o consumidor tem acesso também a condições mais flexíveis de suprimento, em relação ao mercado cativo. A Petrobras ampliou o cardápio de prazos, pontos de entrega e indexadores disponíveis. Em outubro de 2024, a companhia lançou, por exemplo, um pacote com 48 combinações comerciais possíveis. Parte do reposicionamento da petroleira, de olho no avanço de concorrentes. Afinal, a chegada de novos concorrentes desconcentrou o mercado – ainda que não o suficiente para mudar estruturalmente o setor e ameaçar a posição de agente dominante da estatal. Bruno Resende, gerente de Gestão de Gás da NewGas (consultoria criada em 2024 por ex-membros da Comerc), cita que o reposicionamento comercial da Petrobras vem mexendo com a dinâmica concorrencial. “Quando o mercado livre começou a dar seus primeiros passos, o preço estava, numa ordem de grandeza, acima de 11% do Brent. Desde o segundo semestre de 2024, principalmente agora, com a entrada da Petrobras em 2025, e com outros players, a gente já tem observado que essa precificação está abaixo da casa dos 11%”, comenta.
Petrobras mira consumidores menores
A ofensiva da Petrobras no mercado livre passa pela diversificação de sua atuação no segmento. Até então concentrada no setor siderúrgico, com consumos maiores, a estatal passou a explorar este ano novos nichos industriais – e que trabalham com volumes menores que aqueles nos quais a petroleira focava inicialmente. Foi nesse movimento que a companhia colocou o pé na indústria ceramista, ao fechar um contrato de comercialização de gás com a Portobello – principal consumidor industrial de gás de Santa Catarina. A indústria ceramista é o segmento que reúne o maior número de consumidores livres no Brasil e vinha, até então, sendo um dos principais nichos de mercado de comercializadores concorrentes (Edge, MGás e Galp). Na sequência, a petroleira avançou sobre outros segmentos, como as indústrias de vidro e química. Resende, da NewGas, conta que a Petrobras, até então, atendia grandes consumidores, numa faixa acima de 300 mil m³/dia, mas que a companhia vem “descendo a escadinha” e atende, hoje, usuários acima de 50 mil m³/dia. A lógica está em vender volumes menores para mais consumidores. Resende cita que um forno, na indústria ceramista, demanda cerca de 20 mil m³/dia, mas que o Polo Cerâmico de Santa Gertrudes (SP) possui mais 20 indústrias que somam uma capacidade de consumo de 2,2 milhões a 2,3 milhões de m3/dia. A primeira indústria do polo a fechar com a Petrobras foi o Grupo Rocha, que se prepara, em 2026, para ampliar o seu consumo de gás em cerca de 20%. A partir do ano que vem, a companhia vai introduzir o processo de produção de “via úmida” – adição de água na mistura das matérias-primas, o que aumenta a qualidade e homogeneização da massa, mas por outro lado amplia os custos de produção. O novo processo produtivo aumenta a necessidade de se buscar ganhos de eficiência no gás – responsável por cerca de 30% dos custos de uma indústria ceramista. E também pede mais flexibilidade. “O consumo de um atomizador [que faz a secagem do processo] não é fixo, ele pode ser intermitente. É diferente dos fornos que nós temos pela via seca, que tem uma demanda flat. Então a gente vai precisar mais de flexibilidade”, disse o gerente de controladoria do Grupo Rocha, Alan Mattos.
Petrobras lidera ranking do mercado livre
Ao todo, a Petrobras tinha, ao fim do primeiro semestre, contratos com 18 clientes livres diferentes, sendo que 12 deles foram captados em 2025. Veja a lista completa de clientes da petroleira: Gerdau (siderurgia) 2021; Refinaria de Mataripe (refino) 2021; Proquigel (química) 2021; CSN (siderurgia) 2024; Arcelor Mittal (siderurgia) 2024; Ternium (siderurgia) 2024; Suzano (papel e celulose) 2025; Dexco (ceramista) 2025; Usiminas (siderurgia) 2025; Peróxidos do Brasil (química) 2025; Aperam Inox América do Sul (siderurgia) 2025; PBG – Portobello (ceramista) 2025; Nadir Figueiredo (vidro) 2025; Mohawk Revestimentos Cocal do Sul (ceramista) 2025; Grupo Rocha (ceramista) 2025; Araucária Nitrogenados (fertilizantes) 2025; Vallourec (soluções tubulares) 2025; e Guardian do Brasil (vidros) 2025. Com isso, a Petrobras reassumiu, este ano, a liderança do mercado livre, em número de consumidores. Veja a seguir o número de clientes livres por fornecedor: Petrobras (18 consumidores); Galp (17); Edge (10); Shell (8); MGás (7); Eneva (4); BTG Pactual Commodities (2); Origem Energia (2); Brava Energia (1); MTX (1); Voqen (1); e Celba (1).
Fonte: Eixos / GasWeek
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