A indústria de biometano no Brasil pode mais que dobrar de tamanho até o fim da década, continuando a expansão iniciada nos últimos anos. Com o impulso das metas de descarbonização e da Lei do Combustível do Futuro, de 2024, que instituiu um programa de estímulo ao setor, o número de plantas em operação saltou de um, em 2020, para 19, em 2026, segundo dados da ANP. O crescimento deve ganhar escala com outras 45 instalações em construção que, se autorizadas a entrar em funcionamento, elevarão a capacidade diária de produção nacional dos atuais 1,2 milhão de metros cúbicos para 3 milhões de m3.
O biometano é estratégico por reduzir em até 99% as emissões na comparação com combustíveis fósseis. É intercambiável com o gás natural, dada a composição química quase idêntica, e apresenta a mesma eficiência energética. Pode-se, inclusive, injetar ambos os gases na mesma rede de dutos, o que permite o aproveitamento da infraestrutura existente. A expectativa é que a demanda pelo biocombustível avance. No último 1º de abril, o CNPE estabeleceu a meta de redução de 0,5% nas emissões para o mercado de gás natural, que deverá ser cumprida por meio do consumo de biometano, a partir deste ano. A lei previa redução de 1%, mas o valor foi revisto com base em balanços recentes de oferta e demanda. A produção de biometano em fevereiro foi de 10,6 milhões de m3 – média de cerca de 380 mil m3 por dia -, de acordo com a ANP, o que indica que a capacidade instalada ainda não é plenamente utilizada. “A resolução do CNPE deve dar mais impulso à expansão, com investimentos em novas unidades” avalia o diretor[1]executivo da ABiogás, Tiago Santovito, acrescentando que a produção de biometano no país já atraiu aportes de cerca de R$ 3 bilhões.
Outra vantagem do biometano é o preço, definido no mercado doméstico e, por isso, menos exposto às variações do câmbio. Segundo Santovito, a crise no Oriente Médio e a volatilidade do petróleo devem aumentar o interesse no biocombustível. O biometano é considerado um combustível nobre devido ao alto grau de pureza de metano, seu principal componente. A produção começa na decomposição de matéria orgânica, como lixo urbano, resíduos da agricultura e dejetos de animais. A ação de bactérias sobre esses substratos, em ambiente controlado e sem presença de oxigênio, gera o biogás, que, depois de purificado, dá origem ao biometano.
Na Gás Verde, a estratégia adotada foi instalar usinas em aterros sanitários. A empresa já tem duas plantas, uma em Seropédica (RJ) e outra em São Paulo, e prevê chegar a 11 até 2029, por meio da conversão de nove térmicas movidas a biogás em unidades produtoras do biocombustível. Com isso, a capacidade de produção passará quadruplicará, para 650 mil m3 diários. A próxima planta a ser inaugurada fica em Pernambuco. Outros Estados que estão no plano de expansão são Bahia, Maranhão e Minas Gerais. Ao longo dos próximos três anos, a Gás Verde planeja investir R$ 900 milhões nos projetos. “O objetivo é fazer com que o biometano chegue a várias regiões industriais importantes” diz a diretora de comunicação e ESG da Gás Verde, Daniela Teixeira. Hoje, a companhia atende multinacionais como Ambev, Vesuvius e Henkel, que utilizam o biocombustível para abastecer tanto fornos e caldeiras quanto veículos leves e pesados. A entrega aos clientes é feita por meio de carretas também movidas a biometano. “Todos os nossos clientes iniciaram o uso de biometano pelo processo industrial e depois ampliaram para a cadeia de suprimentos.
O Brasil é muito dependente do modal rodoviário, e o biometano oferece o que empresas com compromissos de descarbonização precisam para ter uma frota sustentável, já que ele reduz emissões e pode substituir gás natural e diesel”, afirma Teixeira. A H2A Bioenergia colocou em operação, em março, sua primeira planta de biometano, em Campos Novos (SC), um investimento de R$ 65 milhões. A segunda, em Rio Verde (GO), será inaugurada ainda neste ano. Até 2031, a empresa calcula investir mais R$ 2,9 bilhões para implantar outras 22 usinas no Centro-Sul do Brasil, das quais seis já estão autorizadas pela ANP. A empresa vê no reaproveitamento de resíduos do agronegócio uma oportunidade de criar receita e resolver o problema do armazenamento e o tratamento de resíduos agropecuários. Na planta de Campos Novos, o biometano é produzido a partir de dejetos da suinocultura, por meio de uma parceria com os produtores, explica o diretor[1]presidente da H2A Bioenergia, Adilson Teixeira Lima. Enquanto a companhia entra com capital e tecnologia para fazer a gestão dos resíduos, a propriedade garante o terreno para implantação da usina e o insumo orgânico para a produção. Por dia, a unidade produz 5 mil m3 de biometano com pureza de 99,86%. A ideia é crescer até a capacidade de 16 mil m3 /dia. O biocombustível abastece indústrias e veículos e, em breve, deve ser injetado em dutos de gás natural para distribuição pela rede. “O biometano sai da planta custando 50% do valor do diesel”, diz Lima.
Os produtores parceiros ficam com um percentual que varia entre 10% e 20% da receita líquida da operação. “É a terceira safra do agro, diz o executivo. Novas usinas devem incluir o reaproveitamento de resíduos de outros segmentos, como os oriundos da produção sucroalcooleira e de frigoríficos.
A produção do biometano permite ainda o aproveitamento comercial do digestato (resíduo da decomposição da matéria orgânica), utilizado como fertilizante, e do gás carbônico separado durante a purificação do biogás, que pode ser empregado como insumo industrial em soldagens e na gaseificação de bebidas, por exemplo. Há também a possibilidade de comercialização de Certificados de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs) para empresas que querem abater emissões. A ABiogás estima que o Brasil tem potencial teórico de produção diária de 120 milhões de metros cúbicos de biometano. Para isso se concretizar, seria necessária uma captura robusta da biomassa disponível para geração de energia. No entanto, ainda há baixo reaproveitamento de resíduos.
O avanço do fechamento dos lixões no país – o prazo estabelecido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos era agosto de 2024, mas não foi cumprido – poderia destravar esse potencial ao estimular a destinação adequada de resíduos urbanos. Para Santovito, também são necessárias linhas de crédito para construção de usinas e benefícios fiscais para os renováveis. Já o sócio da área de ambiente e clima do BMA Advogados, Marcio Pereira, observa que desburocratizar o licenciamento ambiental para plantas de biometano, nos casos em que as questões já foram analisadas na concessão da licença para o aterro sanitário, é outro fator relevante para fomentar negócios.
Fonte: Valor Econômico / Suplemento / Transição Energética
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