Perspectiva de grandes volumes de gás natural do pré-sal abre oportunidade para uso em veículos leves e pesados no Brasil
A perspectiva de grandes volumes de gás natural proveniente do pré-sal para os próximos anos abre um grande debate sobre o que fazer com todo esse volume que, em grande parte, é reinjetado nos campos de produção. A falta de um mercado consumidor mais pujante torna esse dilema ainda mais acentuado. Uma das possibilidades que vem sendo discutidas pelo mercado é o aproveitamento do insumo para utilização no transporte público, com já ocorre em diversos países.
Atualmente, 93,6% do transporte é feito pelo modal rodoviário, sendo que 45,5% da energia consumida por este segmento é representada pelo diesel, enquanto o gás fica com somente 2,2% dessa fatia. Esse cenário abre uma oportunidade para ampliar o espaço do gás na matriz, mas é necessário estimular a demanda de forma que o gás veicular possa ser introduzido na matriz de mobilidade brasileira de forma estruturada.
Para que isso ocorra, dois pilares são considerados nessas discussões, como a criação de critérios de livre mercado e o aproveitamento da infraestrutura existente, segundo explica a diretora do Departamento de Gás do MME, Symone Araújo.
Para o presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, o Brasil possui vantagens competitivas para a diversificação da matriz energética, graças ao pré-sal. E o uso do gás como combustível para o transporte público é uma das soluções para ampliar a demanda. Entretanto, defende, é fundamental a estruturação de políticas públicas voltadas para incentivar o uso do insumo e, assim, viabilizar os veículos a gás no mercado.
Hoje, a utilização do gás no Brasil está restrita ao GNV, enquanto na Europa já existem soluções por meio do GNL ou por meio do GNC. Dados do BNDES apontam que a demanda automotiva de gás atual, em torno de 6,8 milhões de m³/dia – média de 2018 –, é voltada, principalmente, para o uso em automóveis convertidos para o GNV. Bem diferente do que ocorre em outros países, como Argentina, Estados Unidos e China, onde o combustível é utilizado em outros modais.
No Brasil, ainda não há fabricação de veículos a gás natural, tanto por meio de GNL como por GNC, que poderiam não somente contribuir para escoar a elevada produção de gás como também na redução de emissões de gases de efeito estufa. O GNL e GNC são capazes de promover uma redução de 20% a 30% das emissões de CO2 e de cerca de 90% dos poluentes emitidos pelo diesel, hoje o principal combustível para caminhões e ônibus urbanos.
O diretor de Estratégia e Mercado da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Marcelo Mendonça, ressalta que há espaço para duplicar a oferta de gás em dez anos, passando dos atuais 55 milhões de m³/dia para algo próximo a 110 milhões de m³/dia. Isso sem contar que um preço mais competitivo poderia destravar um potencial de consumo de até 200 milhões de m³/dia até 2030.
Se considerar o uso do gás por veículos leves e pesados, diz ele, o aumento da demanda poderia crescer 3,5 vezes em relação ao que é hoje.
Consumo
Nos últimos anos, o consumo do GNV no Brasil aumentou em função de diversos fatores, como a popularização dos carros de aplicativos de passageiros e a política de precificação de combustíveis adotada pela Petrobras, que tem ocasionado flutuações nos preços da gasolina e do diesel.
Os números de 2018 corroboram esse argumento. A média consumida pelos carros no ano passado foi a maior desde 2010. Nos oito anos anteriores, variou entre 4 milhões de m³/dia a até pouco mais de 5 milhões de m³/dia. Se o país tivesse mais incentivo para o uso automotivo do gás, poderia acrescentar pelo menos mais 2 milhões de m³/dia aos 6,8 milhões de m³/dia já consumidos, observa Mendonça.
Por outro lado, existe a preocupação com a segurança, em função dos eventuais riscos de explosões de cilindros de gás instalados nos veículos convertidos a GNV. A Comgás, por exemplo, mantém um programa de apoio às convertedoras, que envolve a padronização visual do atendimento dessas empresas credenciadas e a realização de treinamento dos funcionários. No ano passado, 17 lojas fecharam parceria com a distribuidora paulista e a previsão é a de que mais 25 estabelecimentos entrem no programa ao longo deste ano. O trabalho tem refletido no consumo de GNV em São Paulo. No ano passado, foram realizadas 18 mil conversões, aumento de 11,7% em relação a 2017.
No Rio de Janeiro, estado onde há o maior consumo de GNV do país, a Naturgy também vem trabalhando na segurança do uso junto às convertedoras, oferecendo ao motorista uma rede de atendimento que ofereça cobertura em casos de eventuais problemas.
Fonte: Brasil Energia
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