A modernização do setor elétrico brasileiro passa necessariamente pela trinca “3 D” (descentralização, descarbonização e digitalização), como prevê o Plano Nacional de Energia (PNE) 2050 que a EPE colocou em consulta pública há poucos meses. Mas tão importante quanto planejar o ritmo da irreversível transição energética para as fontes mais renováveis é não perder de vista a necessária análise da segurança no fornecimento aos consumidores. O alerta é do sócio e cofundador do CBIE, Bruno Pascon.
O executivo acredita que o excessivo foco que a Empresa de Pesquisa Energética dá no plano à matriz elétrica e especificamente à evolução das energias renováveis intermitentes, como a solar e a eólica, significa na prática redobrar a aposta num modelo que se encontra submetido a variáveis cada vez mais imprevisíveis. “O planejamento de longo prazo precisa levar em conta as mudanças climáticas, o aquecimento global”, avalia.
A CBIE Advisory publicou recentemente uma análise sobre o PNE 2050 na qual defende o uso do gás natural como energia de transição. “Não estão olhando o papel que o gás natural pode desempenhar nessa necessária transição energética, especialmente pelo potencial oferecido pelo pré-sal nos próximos 10 anos”, exemplifica. “A descentralização deve olhar o custo sistêmico e não só o preço”.
A análise da CBIE é que o Brasil já possui uma das matrizes mais limpas de todo o mundo, com a participação de renováveis chegando a 80% se considerada apenas a geração elétrica e a 46% quando contabilizadas também as fontes fósseis. No restante do mundo essas taxas são bem menores, de 27% e 16%, respectivamente.
Com esse perfil, o Brasil acaba contribuindo apenas com 3% das emissões de CO2 globais. Portanto, considera o executivo, os esforços de descarbonização no País podem ser feitos sem replicar modelos de países onde a matriz é mais “suja” e mais sensíveis a pressões internas e externas. “Considerando as políticas de ESG (sigla em inglês para o triângulo ambiental, social e governança), estamos bem de “E” e esquecemos o ‘S’, oferecendo tarifas muito altas”, afirma Pascon.
O diretor da CBIE sugere olhar outros exemplos do exterior, como o da China. O gigante asiático tinha no início dos anos 2000 cerca de 70% de sua matriz em fontes a carvão e investiu pesado nos últimos 15 anos em capacidade eólica e solar, derrubando essa taxa para 52%. Mas crescendo a taxas superiores a 6% ao ano, o país se preocupou com a confiabilidade do sistema e busca agora estimular a construção de usinas termelétricas a gás natural. O objetivo, com isso, é levar o patamar dessa fonte dos 6% atuais da matriz para 15% em poucos anos.
Fonte: O Estado de S.Paulo / especial + Infraestrutura
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