À medida que o mercado brasileiro dá seus primeiros passos de abertura, agentes do setor começam a olhar com mais atenção para o desenvolvimento do negócio de estocagem de gás natural.
Empresas de diferentes elos da cadeia, como a Origem Energia e a Nova Transportadora do Sudeste (NTS), traçam planos para entrar no negócio – já consolidado na Europa e EUA, mas ainda não explorado no Brasil.
Até hoje, foi a Petrobras quem desempenhou o papel de garantir a segurança do abastecimento no país. E agora?
Será que a indústria brasileira está madura o suficiente para que o serviço de estocagem se desenvolva por aqui? O marco regulatório está pronto para isso?
Origem promete serviço em breve
A estocagem de gás é um dos novos negócios que a empresa pretende explorar no Polo Alagoas, conjunto de campos maduros comprados da Petrobras. A intenção da companhia é aproveitar reservatórios depletados para armazenamento subterrâneo de gás.
O diretor técnico da Origem Energia, Nathan Biddle, conta que, tecnicamente, a empresa está pronta para desenvolver o projeto ainda este ano. Parte da infraestrutura necessária está instalada, como as linhas de injeção de gás – que antes eram usadas para recuperação secundária de óleo. Os equipamentos de compressão estão sendo instalados.
A companhia também já tem o gás de colchão — que é o volume permanentemente estocado para gerenciar o reservatório. Aguarda, agora, o aval da ANP.
A Origem mira, como potenciais clientes, produtores de gás que buscam garantir a segurança no fornecimento aos seus clientes e mitigar riscos de falta de produto, em casos de oscilação em suas respectivas produções. Biddle prefere não comentar sobre as negociações com clientes, nem sobre o volume de gás que será estocado.
A Origem produz cerca de 1 milhão de m3/dia e tem contrato de fornecimento com as distribuidoras Bahiagás (BA) e Algás (AL). Biddle conta que a prioridade da companhia será, sempre, vender o gás produzido. A estocagem será construída com base nas sobras de oferta.
“Jamais vamos estocar quando houver demanda, mas há variações nessa oferta e demanda. Em alguns momentos há sobras de oferta, como neste momento”, disse.
NTS mira outro perfil de cliente
Dona de uma rede de gasodutos de 2 mil km, a transportadora elegeu a estocagem como estratégia de diversificação dentro de seu plano de negócios – que prevê investimentos de até R$ 12 bilhões em oito anos.
Ao contrário da Origem, que atua na produção de gás e quer explorar o armazenamento subterrâneo, a NTS aposta na estocagem de gás natural liquefeito (GNL), de olho na demanda das termelétricas.
Estuda um projeto do tipo Norte do Rio de Janeiro — Cabiúnas, em Macaé, é uma das opções. A região é estratégica, pela proximidade com infraestruturas de gás (como o Rota 2) e termelétricas a gás.
O CEO da NTS, Erick Portela, conta que o modelo de negócios ainda está em estudo. Segundo ele, a crise energética na Europa, após a eclosão da Guerra da Ucrânia, deixou claro o valor da segurança energética — e de soluções de estocagem — para o mercado.
“Uma das lições aprendidas na Europa é que países que têm estoque de GNL onshore possuem hubs mais baratos de gás, como a Bélgica e Reino Unido… Temos a convicção de que [o negócio de estocagem de GNL] vai gerar o elo perdido de integração entre o setor de gás e de eletricidade”, comentou.
Quem mais está de olho
O interesse pelo negócio de estocagem de gás no Brasil não é de hoje. Em 2015, a ANP autorizou o primeiro projeto de armazenamento subterrâneo, da Stogas, do grupo Sotreq, na Bahia. O investimento, contudo, não seguiu adiante.
A Engie, controladora da Transportadora Associada de gás (TAG), atua no negócio de estocagem na Europa e também monitora oportunidades no Brasil.
Mais recentemente, a Gas Bridge apostou num projeto do tipo no campo de Manati, no litoral baiano. A empresa chegou a assinar contratos com a Enauta, Prio (ex-PetroRio) e Geopark, no valor total de R$ 848,8 milhões, para compra de 65% da concessão, mas esbarrou nas negociações com a Petrobras para aquisição dos 35% restantes, que lhe garantiriam a operação do ativo.
Sem acordo com a estatal, os acordos da Gas Bridge com as demais sócias de Manati também não avançaram.
A ideia da empresa era converter o campo, em declínio, num projeto de armazenamento subterrâneo. Segundo fontes, a alta dos preços do gás mudou a economicidade de Manati. Manter no porfólio um ativo que lhe proporciona um gás mais barato que o GNL passou a fazer sentido para a Petrobras.
A vida econômica do ativo aumentou e esgotar as reservas remanescentes de gás do campo se tornou mais interessante do que convertê-lo, neste momento, num projeto de estocagem – que também demandaria, no cenário atual do mercado, altos custos de aquisição de gás para injeção no reservatório.
Os desafios inerentes ao mercado brasileiro
O CEO da Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto, acredita que projetos de estocagem começarão a ganhar tração. Ele cita que muitos dos campos maduros vendidos pela Petrobras para operadores privados têm vocação para armazenamento subterrâneo. Mas alerta que a falta de liquidez, neste momento, dificulta a estocagem.
“Com compradores procurando gás, não faz muito sentido guardar esse gás [agora]”, comenta.
A estocagem é uma ferramenta importante para garantir a liquidez e segurança ao sistema. Até hoje quem tem feito esse trabalho de supridor de última instância é a Petrobras. Com a abertura da indústria, a expectativa é que novos agentes comecem a ofertar produtos de suprimento flexível.
O gerente-executivo de gás e energia da estatal, Álvaro Tupiassu, conta que os navios de GNL ajudam, hoje, a cumprir a papel de estocagem de gás no Brasil, mas que soluções de armazenagem subterrânea seriam bem-vindas. O mercado doméstico, contudo, guarda particularidades em relação à experiência europeia.
“O problema do Brasil não é sazonalidade, é aleatoriedade… Não tem um comportamento tão previsível quanto países do hemisfério norte, que têm inverno e verão muito marcados”, disse o executivo, durante participação na Rio Oil & Gas, na semana passada, em referência à falta de previsibilidade na demanda, devido às oscilações do regime hidrológico – e, consequentemente, dos níveis de despacho termelétrico no país.
O consultor Luiz Costamilan defende que a estocagem pode fazer sentido como destino para o gás associado do pré-sal – que precisa de uma demanda constante para não prejudicar a produção de petróleo associada.
Esse gás não tem, hoje, na natureza flexível da demanda doméstica, sobretudo das termelétricas, um mercado consumidor estável o suficiente para lhe garantir um escoamento constante.
A questão, segundo Costamilan, é que projetos de estocagem são de difícil materialização num mercado onde não há sazonalidade.
“O que acontece na Europa e EUA? Lá tem gás mais barato no verão, quando se estoca para vender mais caro no inverno. [O agente] ganha margem e cobre os custos de capital e de operação desse sistema”, explicou, também durante participação na Rio Oil & Gas.
A conselheira da FGV Energia, Ieda Gomes, complementa:
“No Brasil o mercado base [não térmico] não tem muita flutuação. Vai ser mais difícil comprar produto para estocagem. Fica a indagação se é melhor para as térmicas estocar via GNL – mais flexível, mas que é mais exposto aos preços internacionais… ou via estocagem subterrânea, que é algo inédito no Brasil, que precisa montar esquema de tarifa”, disse, em entrevista à epbr.
Na letra da lei
A Nova Lei do Gás (nº 14.134/2021) alterou o regime da atividade de estocagem subterrânea, de concessão para o de autorização.
No âmbito infralegal, a Resolução ANP nº 17/2015 define que as etapas técnicas do projeto de estocagem devem ser apresentadas no Plano de Desenvolvimento dos campos de produção, quando houver previsão de armazenamento subterrâneo.
A Origem, por exemplo, espera obter a autorização da ANP, para seu projeto de estocagem na ocasião da aprovação do PD das concessões no Polo Alagoas.
O advogado Ivan Londres, sócio do escritório Faveret Tepedino Londres Fraga, afirma que, do ponto de vista regulatório, o “básico já está aí” para que os projetos comecem a sair do papel.
Mas alerta que ainda há algumas incertezas relacionadas à atividade – em especial a questão das tarifas de transporte envolvidas na movimentação do gás para estocagem.
“Quando se movimenta gás na rede de transporte, para estocá-lo, e em seguida se retira esse gás para vendê-lo na malha, existe uma tarifação que pode encarecer o serviço. Ainda não há uma formatação adequada de tarifas para isso. Não é um negócio simples, numa transição de mercado”, explicou. Rivaldo Moreira Neto, da Gas Energy, acredita, por sua vez, que a regulação virá em seguida, a reboque dos casos concretos que surgirão.
Fonte: Epbr
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