O setor de gás natural brasileiro está a caminho da ampliação da oferta com potencial para se refletir nos preços. Uma das razões para isso é o decreto do Programa Gás para Empregar, publicado em agosto pelo governo. Outra é o início da operação, em setembro, do gasoduto da Rota 3 e da sua Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN). O preço do energético, que no Brasil é por volta de seis vezes maior do que nos Estados Unidos, é influenciado pela infraestrutura de transporte deficiente e pelos altos custos de importação. Estimativas da EPE apontam investimentos de R$ 94,6 bilhões em gás natural nos próximos anos A Petrobras, por exemplo, principal empresa do setor, prevê em seu Plano Estratégico 2024-2028+ investimentos de mais de US$ 7 bilhões para construção de novas infraestruturas de escoamento e processamento de até 55 milhões de metros cúbicos (m3) por dia de gás natural. Outra que também está infraestrutura é a Transportadora Associada de Gás (TAG), com malhas no Norte, Nordeste e Sudeste. O investimento está previsto em R$ 5,2 bilhões também entre 2024 e 2028.
“A entrada do Rota 3 adicionará cerca de 18 milhões de m3/dia ao mercado interno, aumentando a oferta em 20% em relação a 2023”, observa o presidente da Abegás, Augusto Salomon. O Rota 3 escoa gás do pré-sal da bacia de Santos para o Polo Gaslub, no Rio de Janeiro, que foi renomeado em setembro do ano passado para Complexo de Energias Boaventura. Segundo Salomon, o decreto do MME, que trata de infraestrutura e dá mais atribuições à ANP em questões que impactam os preços, tende a ampliar a disponibilidade do insumo, tornando-o mais competitivo. A região Sul, em especial, sente mais os desafios estruturais do setor, uma vez que a capacidade do gasoduto Brasil-Bolívia, por conta de seu formato telescópico, vai reduzindo a capacidade. Passa a ter 2,8 milhões de m3 diários na última estação de compressão, no trecho sul. “Isso representa apenas 9% da capacidade máxima de 30 milhões de m3/dia em todo o gasoduto. Entre 2020 e 2023, as tarifas de transporte no Sul aumentaram 74%, prejudicando a competitividade regional”, ressalta Salomon.
A Sulgás, responsável pela distribuição no Rio Grande do Sul, está investindo neste ano R$ 100 milhões em expansão da rede. “O gás distribuído pela Sulgás tem origem na Bolívia e no pré-sal. Também aguardamos a injeção de biometano em nossas redes”, diz Silvio Del Boni, diretor-executivo comercial. Com entrega de mais de 2,4 milhões de m3/dia, a Sulgás vai ofertar também 30 mil m3 de biometano, fruto de contrato com a usina da Bioo, em Triunfo, a partir de 2025. Boni destaca que a empresa lançou, em setembro, um movimento visando atrair maior investimento na ampliação de capacidade do Gasbol, que tem limite de fornecimento para o Rio Grande do Sul. Outra distribuidora que sente os efeitos da diminuição de capacidade do Gasbol é a SCGÁS. Seu presidente, Otmar Muller, diz que essa limitação tem feito a empresa trabalhar para diversificar as fontes de suprimento e garantir gás mais competitivo aos clientes. “Porém, a médio e longo prazos, é fundamental um maior volume de investimento em infraestrutura de transporte de gás para a região Sul, de forma a não travar o potencial da demanda da indústria local e sua competitividade”, observa. A SCGÁS investirá, nos próximos cinco anos, R$ 776,5 milhões para ampliar sua rede.
Também em Santa Catarina, a New Fortress Energy iniciou há cerca de sete meses as operações do Terminal Gás Sul (TGS), seu terminal de importação de gás natural liquefeito (GNL) no litoral Norte. O TGS está interligado por um gasoduto ao Gasbol. A importação, diz Edson Bouer, líder da prática de Oil & Gás na Accenture do Brasil, é uma opção mais acessível no curto prazo, mas não resolve os desafios do setor. “A criação de novas infraestruturas, transparência nas tarifas de transporte e, por consequência, o incentivo a novos players, são fundamentais para a competitividade e a redução do custo do gás no país”, salienta o consultor. A oferta doméstica está suprindo cerca de 75% das necessidades de 2024. Dados de outubro de 2024 da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que as importações de gás natural aumentaram 111,5% no acumulado do ano sobre igual período de 2023. A alta é reflexo das secas que afetam a produção hidrelétrica e o início de operações de novos terminais de GNL. Em fevereiro, um deles foi inaugurado no Pará. Para Rodrigo Mariani, sócio de energia do escritório BMA Advogados, a Petrobras ainda detém controle expressivo sobre a cadeia do gás, limitando a competitividade. No entanto, o número de contratos assinados subiu de 72 em 2021 para mais de 400 em 2023 e o de carregadores, de 18 para mais de 40. “Isso mostra o potencial. Mas ajustes regulatórios, redução da concentração de mercado e expansão da infraestrutura são cruciais para o setor”, afirma.
Fonte: Valor Econômico / revista de Infraestrutura e Logística
Related Posts
Compagas abre nova chamada pública para a aquisição de suprimento de gás natural e biometano
A Compagas lançou, uma nova chamada pública para aquisição de suprimento de gás natural e biometano. O objetivo é contratar volume superior a 200 mil m³/dia, destinado ao atendimento dos segmentos...
Argus desenvolve indicador de preços para mercado spot de gás
A Argus, empresa especializada na produção de relatórios e análises de preços para vários mercados, está oferecendo, desde meados do mês de março, um indicador de preços para o mercado spot de gás natural...

