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O urbanismo, o gás natural e a COVID-19, por Leonardo Estrella

Um dos consultores da Fundação Bill Clinton que ajudou a posicionar um bairro catarinense com conceitos modernos de urbanismo sentenciou há mais de uma década que se as cidades começassem a ser concebidas hoje precederiam do gás natural como energia principal.

Nosso país engatinha ainda em infraestrutura de rede de transporte e distribuição de gás natural. E com essa limitação compromete o papel de transição às energias renováveis, a competitividade de setores produtivos, a comodidade e a qualidade de vida da população e a mobilidade urbana das rodovias e cidades.

Quando os planos de crise respondem hoje às necessidades imediatas da saúde social tendemos a assumir um protagonismo individual em responder fortemente ao inimigo que se levantou e se agiganta. Princípios básicos de preservação da vida e do patrimônio – que merecem reconhecimento na Alemanha como ação de resposta e em Hong Kong como prevenção – são postos em prática e, ao mesmo tempo, verifica-se o quão carente é nossa infraestrutura para atender nossa lógica de vida. Bastam duas semanas de uma propagação viral para emudecermos diante do caos.

Mas o que uma energia em rede, invisível, que precisa ser “perfumada” para ser percebida tem de sinergia com esse momento de pandemia da COVID-19 e situação de calamidade pública que assola o mundo todo, potencializada, quem sabe, pelo urbanismo moderno?

O urbanismo que vivemos hoje, conceituado pelo saudoso francês François Ascher, tem como umas das suas principais características o maior isolamento, a potencialização do individualismo e ampliação das situações de risco. Oportuno refletir sobre como essa lógica nos impõem hoje condutas, ao tempo que nos escondemos, quando assim conseguimos, dentro de nossas caixas verticais de moradia.

Ora, Santa Catarina é um estado litoralizado e que tende a ter uma concentração urbana ainda maior nas próximas décadas. Não à toa o mapa atual aponta maiores índices de contaminação do novo coronavírus no litoral, onde há maior acesso à saúde púbica (e aos exames) e maior propensão à propagação da doença em razão da vulnerabilidade.

O gás natural dialoga com a arquitetura funcional e o desenho urbano, pode deslocar energias mais poluentes – congresso de mobilidade da Abegás mostrou dados científicos que mostram que a poluição mata e agrava problemas respiratórios no Brasil -, diminuiu o impacto na mobilidade urbana – sua operação em Santa Catarina significa menos 2.040 carretas circulando diariamente nas rodovias e municípios catarinenses – ajuda a criar espaços de integração e pode ser inclusivo no caso da universalização do seu uso.

Precisamos de cidades rompendo a atual lógica que privilegia as regiões mais desenvolvidas, contribuindo para processos migratórios e de metropolização que afetam o desenvolvimento regional e emancipa, cada vez mais, os limites espaciais e territoriais. Caso contrário nem a lógica dos diversos pensamentos econômicos dominantes, que se sustentam no capitalismo, sobreviverão.

O momento é de responder à crise, como também de repensar nosso modo de vida para melhor preveni-la. Emprestei do gás natural a ideia para provocar esse pensamento. Outras e, talvez, maiores crises virão, e nossas escolhas urbanas estão diante de nós para serem confrontadas.

Há muitas “cidades” fora do nosso mapa, esquecidas e longe do processo de influência nas decisões que fazem dos nossos espaços um espelho de interesses. Necessidades sequer mapeadas, como defende a urbanista brasileira Ermínia Maricato, as cidades fantasmas dos excluídos que não são encontradas pelas contas estatísticas.

Precisamos sem dúvida de planos, mas prescindimos fortemente de maior diálogo e negociação que permitam evoluir o planejamento urbano e compreendendo também que o conhecimento e a informação são construídos antes, durante e depois das ações.

 

Fonte: RCN – artigo: Leonardo Mosimann Estrella – SCGÁS

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