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Como a moratória de Biden à exportação de GNL afeta o mercado

A decisão do governo Joe Biden de pausar as licenças para novos projetos de exportação de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos não deve ter impactos significativos no mercado global a curto e médio prazos.Mas, se o congelamento durar por mais tempo, os efeitos sobre a dinâmica do mercado podem se tornar estruturais, com impactos nos preços e fluxos comerciais, de acordo com analistas.

Para que um projeto de liquefação possa exportar GNL dos EUA para países com os quais os Estados Unidos não têm um Acordo de Livre Comércio (ALC), o agente precisa da aprovação do Departamento de Energia (DoE). O mesmo vale para projetos no México e Canadá que usem gás americano como matéria-prima. Na semana passada, uma ordem executiva do presidente dos EUA determinou uma pausa temporária na aprovação de novos projetos de exportação. A interrupção vale, justamente, para o envio de gás a países com os quais os EUA não possuem ALC – no caso, a maioria dos principais importadores da Europa e Ásia. A exceção é a Coreia do Sul. No anúncio, o governo dos EUA justificou que a medida permitirá ao DoE atualizar seus critérios de análises das autorizações.

Pressionado por grupos ambientalistas, no meio de uma corrida eleitoral para a presidência em 2024, Biden justificou o congelamento de novas licenças pelo caráter ambiental. Na avaliação dos ambientalistas, a liderança dos EUA nas exportações globais de GNL está em desacordo com as ambições políticas do governo democrata de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa a nível nacional e global. “Durante este período, analisaremos atentamente os impactos das exportações de GNL nos custos da energia, na segurança energética da América e no nosso ambiente. Esta pausa nas novas aprovações de GNL vê a crise climática como ela é: a ameaça existencial do nosso tempo”, citou Biden, em pronunciamento oficial. A Wood Mackenzie cita um segundo elemento que tornou as exportações de GNL dos EUA um motivo crescente de preocupação para a administração Biden: após a recente inflação do gás natural no país, os grandes consumidores industriais reforçaram o lobby contra as exportações adicionais.

Os Estados Unidos se tornaram o maior exportador de GNL do mundo em 2023, ultrapassando o Catar e a Austrália. O país exporta atualmente 90 milhões de toneladas por ano de GNL. E uma capacidade adicional de 86 milhões de toneladas por ano está em construção e deve inundar o mercado entre 2024 e 2030. A Wood Mackenzie estima que os EUA devem chegar em 2050 com 30% do mercado global.

A pausa não afetará os projetos que estão atualmente operacionais ou em construção, mas, de acordo com a Wood Mackenzie, tende a dificultar a financiabilidade de novos projetos, bem como atrasá-los. Construir uma planta de liquefação nos EUA leva, em geral, de três a cinco anos. No governo Biden, o processo de aprovação regulamentar dos projetos já havia se tornado mais moroso: o tempo médio para a emissão da licença pelo DoE subiu para mais de 330 dias, contra 155 dias sob a administração Obama e apenas 49 dias no governo Trump. Além disso, a aprovação do DoE é um ponto-chave na decisão final de investimento (FID, na sigla em inglês) de um projeto. A Wood Mackenzie acredita que existe um “risco real” de que nenhum projeto de GNL dos EUA passe pelo FID em 2024. Segundo a consultoria, existem quase 90 milhões de toneladas/ano de projetos aguardando o aval do DoE, atualmente – mais do que os 86 milhões de toneladas/ano em construção. Além disso, existem projetos que já receberam aprovação do DoE, mas que não devem entrar em operação nos próximos anos e precisarão, possivelmente, de prorrogações de suas autorizações. Desde o ano passado, o governo americano concede o aval para projetos desde que as primeiras exportações tenham início no prazo de sete anos. Não está claro se a pausa afetará os pedidos de extensão.

O efeito da pausa no mercado de GNL, de forma mais ampla, é mínimo neste momento, na avaliação de Joseph Ira, pesquisador associado sênior do Centro Global de Política Energética (CGEP), da Universidade de Columbia (EUA). Ele lembra que grande parte da capacidade em construção nos EUA e no Catar, hoje, não tem contratos de longo prazo para comercialização de seus respectivos volumes. “Se os compradores estão preocupados com o fato de a pausa do DoE ser um risco para a segurança do seu abastecimento, existe bastante GNL em oferta para atenuar essas preocupações”, escreveu.

A Wood Mackenzie destaca que a decisão de Biden não muda as previsões das exportações de GNL dos EUA até 2028, mas que depois disso, se a pausa durar, ela poderá afetar a trajetória e o ritmo de crescimento do setor. Se a moratória for de fato temporária e atrasar o FID de novos projetos para 2025 e 2026, o impacto no mercado global não seria material e talvez apenas limitado ao período 2028-2029. No entanto, se o governo dos EUA introduzir medidas ambientais mais rigorosas para aprovação de novos projetos, os atrasos podem ser maiores, colocando ainda mais pressão sobre a dinâmica do mercado por volta de 2030. Ou seja, se a pausa se estender a longo prazo, haverá implicações duradouras no mercado global, já que os investimentos de grande capacidade têm sido dominados pelos EUA e pelo Catar nos últimos anos. Com as sanções à Rússia e incertezas sobre o desenvolvimento da indústria de GNL de Moçambique, os importadores terão opções limitadas. Mas compradores poderão começar a olhar para projetos concorrentes fora dos EUA, como os do Canadá, da Austrália e, em particular, do Catar como fontes alternativas. Na Europa, os governos locais exercerão ainda mais pressão para diversificar a matriz, afastando-se do gás. E países asiáticos podem rever a estratégia de uso do gás como combustível de transição e substituto do carvão. “Uma moratória sobre o novo desenvolvimento de GNL nos EUA pode muito bem minar o papel que o gás poderia ter na transição energética”, cita a consultoria. Para Akos Losz, também pesquisador associado sênior do CGEP, de Columbia, o impacto de uma pausa de longo prazo dependerá, no fim das contas, do comportamento da demanda. Ele cita que novos projetos, ainda não sancionados, fora dos EUA, podem “plausivelmente preencher uma lacuna de oferta” se as restrições às exportações dos EUA se mantiverem.

No entanto, 40% dessa capacidade está na Rússia (atingida por sanções ocidentais); outros 15% estão na África Oriental (assolada por problemas internos) e outros 15% no México (sujeito à jurisdição do DoE, uma vez que utilizam gás dos EUA como matéria-prima). “Se a demanda global de GNL entrar em queda livre dentro de uma década (como sugerem alguns cenários net zero), então o destino dos projetos dos EUA pouco importa”, explica. “Mas se a procura estiver mais próxima das atuais projeções da indústria (ou das trajetórias net zero mais intensivas em GNL), então quaisquer restrições à oferta futura de GNL nos EUA poderão muito bem ter um impacto tangível nos equilíbrios globais daqui a cinco a dez anos, especialmente se a atual suspensão de licenciamento for mantida ou prorrogada no futuro”, escreveu o analista. Líder de pesquisa do Instituto de Economia da Energia e Análise Financeira (IEEFA), Sam Reynolds, vê exagero nas preocupações com a decisão de Biden. Acredita que o mundo está a caminho de aumentos recordes na capacidade global de exportação de GNL nesta década e prevê que a inundação de oferta que se aproxima provavelmente resultará num excesso global. “Só em 2026, o mundo poderá assistir a um aumento de 13% na capacidade de fornecimento de GNL – o maior aumento anual da história – grande parte dele proveniente dos EUA e do Catar. A pausa na autorização dos EUA não contribuirá em nada para aliviar este excesso ou impedir a entrada no mercado de capacidade já em construção”, cita. E complementa que os maiores clientes dos EUA – o Japão e a Coreia do Sul – deverão reduzir drasticamente a demanda.

A Wood Mackenzie destaca que a interrupção nas licenças de novos projetos pode aumentar os preços internacionais do GNL a longo prazo. Isso tudo num momento em que o mercado global vive a expectativa de que os preços internacionais começam a entrar em viés de baixa. Para o mercado interno dos EUA, as implicações tendem a ser menos dramáticas. A consultoria prevê que, com 86 milhões de toneladas/ano de projetos de GNL atualmente em construção, os preços do Henry Hub devem se manter acima de US$ 3,5 o milhão de BTU. Se a pausa nos novos investimentos for limitada a um ou dois anos, as implicações sobre os preços também devem ser limitadas e não alteram a visão de longo prazo da Wood Mackenzie. Mas se não forem desenvolvidos mais projetos de GNL nos EUA, as projeções de preços podem ser revistas para baixo.

Para Anne-Sophie Corbeau, do CGEP, a pausa imposta pela administração Biden coloca a pegada ambiental do gás americano em evidência. Nesse sentido, é importante que os empreendedores estejam preparados para serem competitivos “ambientalmente”. Ela acredita que as regulamentações se tornarão provavelmente mais rigorosas do ponto de vista ambiental. Isso significa que os novos projetos terão de aumentar a atenção sobre a emissão de metano; utilizar eletricidade limpa para liquefazer o gás natural. “As centrais de GNL (existentes e em construção) devem fazer o mesmo. Num mundo onde o fornecimento de GNL compete, outros exportadores com cadeias de valor mais simples farão o investimento para reduzir a pegada de carbono do seu GNL”, comentou.

O Instituto Americano de Petróleo (API, na sigla em inglês) emitiu, na véspera do anúncio do governo Biden, uma carta conjunta com outras entidades representativas do setor alertando para os efeitos da medida. Segundo a indústria local, a suspensão poderia reforçar a influência russa na geopolítica do gás. Os EUA têm se posicionado como uma fonte importante de gás para a Europa, em alternativa ao gás russo. Analistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) compartilham da preocupação. A análise é de Ben Cahill, membro sênior do Programa de Segurança Energética e Mudanças Climáticas, e Joseph Majkut, diretor do Programa de Segurança Energética e Mudanças Climáticas: “Os países importadores de GNL estarão preocupados com o clima político em Washington. Uma preocupação será que as futuras restrições de abastecimento nos Estados Unidos tornarão mais difícil para a Europa depender do fornecimento de gás não russo a médio e longo prazo”. Citam que Japão e a Coreia do Sul “tendem a estar bastante preocupados com a segurança do abastecimento, e ambos os países valorizam a flexibilidade, os benefícios comerciais e a diversificação do abastecimento proporcionados pelo GNL dos EUA”. Os países asiáticos estão entre os maiores importadores mundiais de GNL. A Comissão Europeia nega que a decisão da Casa Branca “terá qualquer impacto a curto ou médio prazo na segurança do abastecimento” da União Europeia. Sam Reynolds, da IEEFA, por sua vez, relativiza que os maiores compradores de GNL de novos projetos nos EUA são traders – e não consumidores finais na Ásia e Europa. “Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, os comercializadores de GNL fizeram fortunas vendendo remessas para a Europa. Desde então, as grandes empresas de óleo e gás e os comerciantes de matérias-primas têm engolido o fornecimento de GNL de novos projetos e aberto mesas de negociação em mercados-alvo, na esperança de maximizar os retornos das revendas de GNL”, diz. “Em alguns casos, projetos inteiros de exportação de GNL foram construídos exclusivamente com base em compromissos de compra dos comercializadores”.

Os EUA são a principal fonte de GNL do mercado brasileiro: em 2023, representaram 78% das importações, de acordo com dados da ComexStat. Além disso, tem crescido o uso dos preços internos do gás, nos Estados Unidos, como referência para os preços do gás doméstico, no Brasil. Ao menos 14 distribuidoras estaduais têm, hoje, parte de seus volumes indexados ao Henry Hub. Na maioria dos casos, o novo indexador passará a valer a partir de 2026. O Henry Hub, contudo, ainda é uma realidade para a minoria das concessionárias – e elas optaram, na maioria dos casos, por contratar volumes ainda pequenos com base na referência americana. De todo modo, a dinâmica do mercado americano tende a influenciar, cada vez mais, a própria dinâmica do mercado brasileiro.

Na avaliação da Wood Mackenzie, para traders e donos de plantas de liquefação em construção nos EUA que estão apenas parcialmente expostos ao mercado americano, as notícias não são de todo ruins. Para desenvolvedores de projetos, a pausa nas licenças pode ajudar a amenizar a inflação dos custos de construção de novas unidades. Além disso, os agentes podem se beneficiar eventualmente de preços internacionais mais elevados a médio prazo, em meio à desaceleração do aumento da oferta. Para potenciais futuros compradores de GNL dos EUA, a medida coloca um ponto de interrogação se os EUA são o melhor lugar para recorrer rapidamente a GNL de baixo preço – uma percepção alimentada há vários anos. Isso poderia proporcionar uma janela de oportunidade para grandes projetos de GNL fora dos EUA – Canadá, Catar e Austrália certamente irão ganhar mais atenção. Para players de gás dos EUA, a expansão do mercado de gás norte-americano tem sido impulsionada pelo crescimento das exportações. Uma pausa no desenvolvimento de novos negócios significa, para esses produtores locais, sobretudo do shale, um impacto negativo. Até mesmo os produtores de petróleo da Bacia do Permiano podem ser afetados, à medida que os seus poços produzissem mais gás natural associado ao longo do tempo. Se houver uma pressão para baixo nos preços do Henry Hub, isso pode impactar também os desenvolvedores de energia solar e eólica nos EUA – já que o gás ganharia competitividade no mercado interno.

Fonte: Epbr

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