Em artigo publicado na revista da Firjan, a Cogen afirma que
Eficiência a energética e segurança de abastecimento elétrico, especialmente da cogeração, são atributos que precisam ser cada vez mais valorizados. Uma reportagem recente do jornal O Globo [“Mercado de data center vive ‘boom’ com uso da IA”, publicada em 03/07/2025), mostra que a indústria de inteligência artificial está impulsionando uma onda de projetos de data centers no país E o que isso tem a ver com cogeração? Essas instalações, turbinadas pelo surgimento de chatbots etc. exigem muita energia para processar, armazenar e distribuir dados. Para funcionar bem, os ambientes onde ficam os computadores precisam de equipamentos de climatização potentes e suprimento de energia elétrica confiável. Não por acaso, a demanda global de energia deve aumentar acima dos padrões registrados na década passada. Um relatório do BCG, intitulado “Breaking Barriers to Data Center Growth”, projeta que a demanda global por energia para data centers crescerá a uma taxa anual de 16% entre 2023 e 2028. Essa é uma janela de oportunidades para o Brasil, onde governos de muitas unidades da federação e de prefeituras municipais, inclusive no Rio de Janeiro, veem com bastante interesse a possibilidade de atrair os investimentos nessas infraestruturas tecnológicas, polos capazes de gerar empregos de qualidade e aumentar a arrecadação. Entre diversos quesitos que são avaliados pelos investidores, um deles é inescapável: é preciso energia segura, confiável e resiliente, que combine ganhos ambientais e segurança energética. Todos esses são atributos vinculados, por excelência, aos sistemas de cogeração.
Explicando o que é cogeração
Trata-se de uma das formas mais inteligentes, estáveis e eficientes de produção de energia. A cogeração, em resumo, é resultado da produção de dois tipos de energia (elétrica e térmica, com calor ou frio) a partir de uma única fonte – biomassas, gás natural e biogás, por exemplo. Esse aproveitamento da energia térmica pode produzir aplicações complementares como vapor e água gelada, ou seja, climatização. Justamente por ser gerada diretamente no centro de consumo, a cogeração evita perdas naturalmente existentes nos processos de transmissão e distribuição, o que é bom para o país. E em caso de intercorrências no SIN, o estabelecimento atendido pela cogeração tem muito mais estabilidade e autonomia. Historicamente, o Brasil despertou para a cogeração no começo dos anos 2000. Em agosto de 2025, data de produção deste artigo, o segmento já contava com 21,9 GW de capacidade instalada em operação comercial, o que nesse momento representava 10,3% da matriz elétrica nacional (212,7 GW), considerando-se somente a geração centralizada. Além das usinas sucroenergéticas e de Papel e Celulose, que juntas respondem por 77,1% da cogeração, outros setores industriais relevantes são atendidos: petroquímico, madeireiro, alimentos e bebidas, siderúrgico, saneamento e automobilístico, entre outros. O mais interessante é que a cogeração permite que cada localidade usufrua de seus benefícios com a fonte energética de sua vocação energética – biomassa de cana-de-açúcar, no interior paulista; os resíduos da produção de papel e celulose em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul e gás natural na região metropolitana do Rio de Janeiro, apenas como alguns exemplos.
Em uma grande metrópole como a que gravita em tomo da capital fluminense, a cogeração a gás natural pode ser extremamente útil. Primeiramente porque na região metropolitana há uma notável capilarização das redes de distribuição de gás natural das concessionárias CEG e CEG-Rio (resultado de décadas de investimentos das empresas controladas pela Naturgy Brasil), o que viabiliza de antemão um dos fatores básicos para o começo de qualquer projeto -0 suprimento. Em segundo lugar, a existência dessas redes pode ser uma porta de entrada para a injeção de biometano, gás renovável decorrente da purificação de biogás a partir do aproveitamento de resíduos agrossilvipastoris e resíduos sólidos urbanos, em produção crescente e alavancada com a Lei do Combustível do Futuro, a Lei 14.993/2024, que estabelece o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano. A produção de biogás e biometano, aliás, pode ser, com escalabilidade, um vetor a mais para despertar o apetite de data centers e outros negócios que tenham interesse em combinar a segurança do gás natural com a renovabilidade do biometano. O Rio de Janeiro tem protagonismo nas duas frentes, como um dos maiores produtores de gás natural e de biometano – com destaque para a planta da Gás Verde em Seropédica. Além disso, os empreendimentos precisam cada vez mais da certeza de fornecimento contínuo, faça chuva ou faça sol, algo que tem sido um problema recorrente no país, diante das nem sempre previsíveis intempéries climáticas – os brasileiros ficaram em média 10 horas e 14 minutos sem energia por conta de interrupções de fornecimento em 2024, segundo a Aneel. A frequência das interrupções foi de 4,89 quedas por consumidor.
Desafios e oportunidades para a cogeração no Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro tem cases pioneiros no uso da cogeração a gás natural em indústrias emblemáticas do setor de bebidas e têxtil, e esse potencial pode ser ainda mais expressivo se o país avançar na competitividade do gás. Dados divulgados pela EPE, braço de planejamento do MME, revelam que o custo final do gás natural no Brasil poderia cair à metade (de US$ 16,10 para US$ 7,67) por milhão de BTU, se fossem eliminados os custos ainda cobrados por investimentos em ativos já depreciados e devidamente remunerados em elos da cadeia como Escoamento e Processamento e Transporte pelos gasodutos. Para ampliar essa competitividade, a abertura do mercado e a revisão criteriosa desses custos são um anseio da indústria do Rio de Janeiro e de todo o país – que dependem de gás natural para otimizar seus processos produtivos em setores considerados hard-to-abate. Muitos clamam por mais concorrência na oferta -e no Brasil, apesar de alguns progressos, ainda há estados em que o gás distribuído é originado por um único supridor, que tem forte dominância na formação do preço da molécula.
Um bom exemplo de como a abertura do mercado é positiva está no estado da Bahia. Beneficiada pela abundância de oferta de gás onshore, a concessionária local conta com mais de dez supridores e fornece um gás a mais ou menos US$ 11 o milhão de BTU. Para solucionar esse tipo de questão, a ANP, agora tendo em sua composição dois novos diretores empossados depois de sabatinados e aprovados no Congresso Nacional, tem papel preponderante. A revisão tarifária das transportadoras de gás, com um minucioso exame da base de ativos regulatórios, é um processo que merece muita atenção dos cinco diretores que compõem a ANP. Também há muita expectativa sobre os leilões da PPSA, cujo cronograma original está atrasado, mas podem ser determinantes para o acesso negociado e não discriminatório às infraestruturas – os custos atualmente praticados de acesso à infraestrutura do Sistema Integrado de Escoamento (SIE) e de Produção (SIP). Cuidar desses processos com o devido zelo é fundamental para que a indústria brasileira possa investir mais na cogeração, principalmente no Estado do Rio de Janeiro, que teve um significativo crescimento do PIB em 2024, de 3,9%, superando em 0,5 ponto percentual o do PIB nacional, segundo dados do Sistema Firjan.
Valorizar atributos da cogeração a gás é fundamental
Existe considerável potencial para crescimento da cogeração. Um estudo realizado com 12 segmentos pela Cogen, em parceria com a Promon Engenharia, já em 2018, identificou que o maior potencial para a produção de eletricidade a partir da cogeração a gás natural está nas atividades química, hospitais, shoppings e têxtil, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Aproximadamente 5.500 novos empreendimentos poderiam usar essa alternativa de autoprodução de energia, o que triplicaria a cogeração a gás, que permanece estável em 3,2 GW. Essa soma de novos projetos, revela o levantamento, pode chegar a 7,2 GW, o que equivale a meia Itaipu Binacional, terceira maior usina do mundo em capacidade instalada, com 14 GW. De sua parte, a indústria de cogeração vem fazendo seu papel, investindo em inovação e em aprimorar a eficiência de equipamentos. Ainda assim, o desenvolvimento de novos projetos mais robustos de cogeração, considerando a grande indústria, tem sido tímido, o que demonstra um quadro que requer incentivos corretos e políticas públicas adequadas diante de todos os benefícios que essa forma de produzir energia proporciona para matrizes energética e elétrica mais equilibradas, confiáveis e distribuídas Um dos pleitos da Cogen junto à ANEEL é a precificação dos atributos da cogeração a gás natural, com ganhos de competitividade que poderiam trazer mais racionalidade para o sistema elétrico em vez de investimentos em geração centralizada. Em Brasilia tramitam várias pautas que envolvem o setor energético e, definitivamente, a cogeração a gás precisa ser lembrada, não só pelo custo mais competitivo em comparação ao de usinas termelétricas, mas por sua maior eficiência energética, entre outras externalidades econômicas e ambientais. E fundamental que tais atributos sejam devidamente valorizados por reguladores e agentes públicos, em benefício de um país que precisa atrair não só data centers, mas reter e estimular negócios que geram renda e empregos para os brasileiros.
Fonte: Revista Firjan – Cogen
Related Posts
Bio-GNL: a nova era do biometano entre a transição e a segurança energética
Em artigo publicado no portal da agência eixos, o economista Leonardo Campos Filho afirma que A ideia era reportar as oportunidades representadas pela utilização do biometano substituto e complemento do...
Provações no mercado de GNL
Em artigo publicado no Estadão, o sócio fundador do CBIE, Adriano Pires, afirma que, Em 2026, o GNL passou a operar sob uma nova lógica: menor previsibilidade, maior sensibilidade a disrupções e crescente...

