Em meio à dificuldade do mercado de gás natural em costurar um consenso sobre a reforma do marco regulatório do setor, duas mudanças no texto do projeto de lei do Gás Para Crescer prometem emperrar de vez as pretensões de que a iniciativa avance durante a transição de governo. O impasse já está instalado há quase um ano, mas ganhou novos contornos depois que a ideia original de regulação do mercado livre foi desfeita e o substitutivo da Lei do Gás ganhou um novo artigo criando um fundo para financiar gasodutos.
Sem avanços na busca de um consenso, o relator na Comissão de Minas e Energia da Câmara, o deputado Marcelo Squassoni (PRB/SP), pediu a retirada do projeto da pauta da reunião desta quarta-feira. A intenção é que a matéria volte à pauta ainda neste ano, mas a falta de um entendimento entre as partes pode dificultar a aprovação da nova Lei do Gás.
Existe a expectativa no setor de que o governo Jair Bolsonaro consiga sacramentar a reforma do marco regulatório. A proposta de plano de governo do novo presidente eleito vai na direção de alguns pontos incluídos na reforma iniciada no governo Michel Temer. O documento de Bolsonaro cita, por exemplo, o interesse na desverticalização e desestatização do setor e medidas como livre acesso e compartilhamento dos gasodutos e criação de um mercado atacadista de gás natural.
A tarefa de avançar com a reforma num ambiente de conflito, no entanto, não será fácil. Não à toa, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) abriu uma série de consultas públicas para tentar emplacar as mudanças de forma infralegal. O órgão vai discutir nos próximos meses temas como a desverticalização do setor, acesso a infraestruturas essenciais e harmonização das regulações estaduais. A expectativa, no entanto, é que propostas só se tornem concretas em 2019.
A tramitação do PL travou na Câmara no fim de 2017. A versão original do substitutivo do PL 6.407/2013, apresentada na ocasião, atribuía à ANP a regulação do consumidor livre. A proposta é defendida por praticamente todos os agentes, mas esbarrou na resistência das distribuidoras, favoráveis à manutenção da regulação estadual e que possuem força nas bancadas estaduais. Hoje, cada Estado possui uma regulação própria.
Com a pressão das distribuidoras, o projeto parou. O novo substitutivo, apresentado na Câmara nos últimos dias, confirmou o recuo na proposta de atribuir à ANP a regulação do mercado livre e desagradou parte da indústria.
Representantes dos consumidores (Abrace) e o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) se queixam de que há legislações estaduais que são impeditivas à abertura do mercado. Reclamam que, em alguns Estados, as exigências para migração para o mercado livre são altas e que usuários têm de pagar às distribuidoras a mesma tarifa paga por clientes cativos. Já a Abegás, que representa as distribuidoras, defende que, pela Constituição, cabe aos Estados regular o gás canalizado e que o mercado só não se desenvolveu por falta de ofertantes.
Com o impasse ainda não resolvido, sobrem dúvidas sobre as condições de o projeto avançar.
“Seria mais interessante deixar as discussões para 2019, num novo governo, fazer as coisas de forma mais consistente”, afirmou o presidente da Abrace, Edvaldo Santana.
Fonte: Valor Econômico
Related Posts
Relator da Lei do Gás defende transição gradual no Gas Release
Relator da Lei do Gás, o senador Laércio Oliveira (PP-SE) defendeu a adoção gradual de medidas visando a desconcentração do mercado de gás natural, no âmbito do programa Gas Release, de forma que “a...
20 Estados pedem ingresso em ADI da Abegás contra Lei do Gás
Os Estados de Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, São...

