Av. Alm. Barroso, 52 - sl 2002 - Centro- RJ
+55 21 3970-1001/3970-1008

Petroleiras miram termelétricas a gás

O setor elétrico entrou de vez no radar das grandes petroleiras, ávidas por encontrar uma maneira de monetizar suas reservas de gás natural no país. Embaladas pelo processo de abertura do mercado brasileiro de gás, empresas como Shell, Equinor e Petrobras sinalizam para investimentos em termelétricas próprias, como forma de absorver os volumes que elas produzirão no pré-sal, nos próximos anos. A BP, que atua na importação de gás natural liquefeito (GNL), também quer se estabelecer como agente do setor de energia no país. Nesse sentido, o leilão A-6 de amanhã, na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) em São Paulo, que contratará projetos de geração de energia para entrega daqui a seis anos, desponta como uma oportunidade de negócios para as petroleiras.

Shell e GNA (que tem a BP como sócio), por exemplo, têm projetos inscritos para a licitação. A disputa, contudo, promete ser acirrada. O Valor apurou com fontes do governo e do mercado que, devido à baixa demanda das distribuidoras de energia, apenas uma ou duas usinas devem ser contratadas no leilão, dentre os 26 projetos de termelétricas a gás habilitados. Ou seja, é muito investidor para pouca demanda por projetos.

GNA (BP/ Siemens / Prumo Logística), Shell e a Golar, donas dos três maiores projetos privados de geração em construção no país, atualmente, estão em busca de novos contratos, na tentativa de ampliar seus respectivos complexos termelétricos. Grandes geradoras de energia, com expertise na área de gás, como a Engie e a Eneva, também estão no páreo.

A Shell participará da licitação com um projeto de expansão da termelétrica Marlim Azul (565 megawatts), em Macaé (RJ), onde a multinacional possui uma fatia de 29,9%, em sociedade com o Pátria Investimentos (50,1%) e a Mitsubishi (20%). A usina, prevista para 2023, foi um primeiro passo dado pela companhia para monetizar sua parcela de gás no pré-sal.

Sócia da Petrobras nos campos Lula e Sapinhoá, a Shell é a segunda maior produtora do Brasil, com volumes de 15 milhões de metros cúbicos diários (m3 /dia) – o equivalente a 11% de todo o volume produzido no país. Hoje, esses recursos são vendidos para a estatal, mas a petroleira brasileira se comprometeu junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a não renovar seus contratos para compra de gás de terceiros. A medida abre oportunidades para que empresas como a Shell se consolidem como fornecedoras. Para a expansão de Marlim Azul, por exemplo, a ideia é abastecer a usina com parte do gás que a Petrobras deixará de comprar da multinacional nos próximos anos.

Ao menos outras duas grandes petroleiras tentam replicar a estratégia da Shell, de monetizar suas produções por meio da geração de energia. Na semana passada, a norueguesa Equinor e a Petrobras, sócias na descoberta de gás de Pão de Açúcar, na Bacia de Campos, assinaram um memorando de entendimentos para desenvolvimento conjunto de negócios de gás, incluindo projetos termelétricos.

A brasileira busca oportunidades no setor de energia, não só como geradora, mas também como fornecedora de gás para usinas de terceiros. “Olhamos sim [o leilão A-6]”, afirmou a diretora de refino e gás da companhia, Anelise Lara, em agosto. A empresa não confirma se participará ou não da licitação de amanhã. Questionada sobre o assunto, a Petrobras respondeu que vem avaliando os leilões de energia “através de projetos e parcerias estruturadas, buscando maximizar o valor do seu portfólio de gás”, mas que não comenta oportunidades específicas.

BP, uma das sócias da Gás Natural Açu (GNA), também busca no leilão A-6 um mercado para seu produto importado. A companhia será a supridora das duas usinas em construção pela GNA no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ), num total de 3 mil MW. A geradora inscreveu mais dois projetos, num total de 2,2 mil MW, para o A-6.

Terceira maior produtora de gás do Brasil, atrás apenas da Petrobras e da Shell, a Eneva é outro exemplo de produtora que vem buscando oportunidades de expansão de seus negócios no setor de energia. Maior geradora termelétrica privada do país, a companhia possui 1,4 mil MW instalados em usinas a gás, no Complexo Parnaíba, no Maranhão, e outros 500 MW em construção, no Maranhão e em Roraima. A empresa, no entanto, segue ativa na exploração de gás terrestre e inscreveu, para o leilão de amanhã, um projeto de 270 MW no Parnaíba. Com custos de produção baixos, em relação ao pré-sal e GNL, a Eneva desponta como uma das favoritas para a licitação desta semana.

“O setor elétrico, sem dúvida, pode ser uma âncora para produzir demanda para o setor de gás, mas o volume a ser absorvido vai depender da declaração das distribuidoras no leilão, que segue uma lógica econômica”, afirma o presidente da consultoria PSR e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Barroso.

A consultoria Thymos Energia estima que a demanda do leilão será de 500 a 600 megawatts (MW) médios. Segundo ela, o volume esperado é inferior aos dos leilões realizados em anos anteriores. “A demanda modesta se deve, em parte, a incerteza sobre a retomada econômica. Ainda assim, há distribuidoras que precisam adequar o portfólio, que tiveram aumento na demanda ou que possuem contratos próximos do vencimento e precisam recontratar fornecedores”, diz o gerente na Thymos Energia, Sami Grynwald, em nota.

O leilão de amanhã será disputado também por grandes empresas do setor de GNL. A Golar, sócia da Ebrasil na Celse, responsável pela construção da usina Porto de Sergipe (1,5 mil MW), em Barra dos Coqueiros (SE), vai participar com três projetos, no Sergipe e Pará, todos em sociedade com parceiros distintos, num total de 2,4 mil MW. Um deles é a expansão da térmica sergipana. A francesa Engie também pretende participar do leilão com um projeto de 600 MW, a GNL, em Santa Catarina.

Além de térmicas a gás, o leilão contratará energia de outras fontes. Entre os 71 mil MW habilitados, a maior parte é de projetos de energia solar (24,7 mil MW), seguida de eólicas (22,5 mil MW).

“É um privilégio termos um ambiente com tamanha competição e diversificação de fontes. Isso reflete o amadurecimento da indústria e a atração de investidores de diversos tipos. São empresas que não vieram para cá [Brasil] para participar de um leilão apenas”, afirma o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales.

O momento de abertura do mercado movimenta não só a iniciativa privada, mas também dos Estados. O governo do Rio de Janeiro, por exemplo, está implementando um novo marco regulatório para o mercado livre de gás natural, com regras mais atrativas a novas termelétricas, e anunciou recentemente a intenção de implementar um diferimento de alíquota de ICMS sobre o gás consumido pelas usinas no Estado. Não à toa, um terço de toda a capacidade de geração térmica a gás habilitada no leilão A-6 está no Rio, que concentra ainda boa parte da infraestrutura de escoamento e processamento do gás do pré-sal. O Estado do Sergipe também criou um marco legal na mesma direção.

 

Fonte: Valor Econômico

Notícias relacionadas